Você conhece plataformas de negócios de tecnologia?

tecnologia

Introdução

 

Plataformas de negócios de tecnologia surgiram de uma ideia bastante simples de se unir a necessidade de algumas empresas de buscar tecnologias ou soluções inovadoras prontas para alavancar os seus produtos ou processos com a oferta de tecnologias desenvolvidas por outras empresas, universidades ou desenvolvedores individuais. São plataformas que utilizam o conceito de Inovação Aberta ou Open Innovation. Neste texto será mostrado um resumo das origens e conceitos de Inovação Aberta e como as plataformas de negócios podem ser úteis para quem quer comprar ou vender tecnologia inovadora. Podem ser oportunidades para desenvolvedores free-lancers, pequenas empresas de tecnologia, grupos universitários de pesquisa entre outros. Vale a pena conhecê-las.

 

 

Origens da Inovação Aberta

 

O modelo atual de inovação aberta passou por um processo de amadurecimento e de mudanças de paradigma durante décadas e décadas. Desde os primórdios do capitalismo, o segredo industrial, a propriedade industrial, o sigilo das patentes acompanhavam os processos de inovação das empresas. Vale ressaltar que as patentes eram cruelmente defendidas pelos seus proprietários.

 

A maior parte das evoluções tecnológicas surgidas nos séculos 19 e 20 nasceu dentro do modelo “inovação fechada” (termo criado por Chesbrough), cujo modelo utilizado pelas empresas tinha por premissas que a empresa deveria deter os melhores talentos e, com isso, ter as melhores ideias, mantendo-se sempre à frente dos concorrentes, já que suas invenções seriam melhores que as dos outros, segundo análise do comportamento das grandes firmas americanas ao longo do séc. XX, realizada por Henry Chesbrough.

 

No decorrer do tempo, com alterações na forma da disseminação do conhecimento, observou-se alterações sociais profundas, com a globalização da pesquisa e da tecnologia e crescente adesão ao mundo conectado em rede. A mobilidade da mão de obra, o surgimento de centros de formação de excelência em todo o mundo tornou impossível manter os melhores talentos e os mais importantes conhecimentos (segredos) dentro dos departamentos fechados de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das organizações. Somado a isso, o custo dessa manutenção era extremamente alto. Seria preciso olhar para fora em busca de caminhos alternativos para geração de inovação.

 

As empresas primeiramente abriram seus departamentos fechados de P&D para ouvir outros departamentos da própria empresa (áreas de vendas, serviços, entre outros). Depois passaram a envolver os fornecedores na cadeia produtiva e até mesmo os clientes, surgindo a inovação em rede, envolvendo outros agentes e parceiros como centros de formalização de excelência e pesquisas, e na sequência, o envolvimento dos concorrentes, ainda que em momentos pré-competitivos.

 

A colaboração, a compra e venda de tecnologias e o licenciamento das invenções e até mesmo a aquisição de empresas de base tecnológica (spin-in) passaram a ser vistos como um novo paradigma, onde o ambiente externo deveria ser considerado nas estratégias de inovação e de geração de receita. O conceito de Inovação Aberta passou a ser praticado sistematicamente em muitas empresas, sejam elas pequenas ou grandes.

 

Na verdade, todas estas formas de relacionamento e processos de inovação já existiam de forma isolada anteriormente, em sua totalidade ou mais provavelmente, parcialmente em muitas empresas, mas só após esta conceituação segundo o modelo de Inovação Aberta é que as empresas passaram a praticar sistematicamente estas novas oportunidades de inovação. Mesmo pequenas empresas podem praticar uma ou mais etapas deste modelo”, segundo Ronald Dauscha.

 

 

Conceitos

 

Inovação aberta

 

Ou em inglês, Open Innovation, é um termo cunhado por volta de 2003 para as indústrias e organizações que promovem ideias, pensamentos, processos e pesquisas abertos, a fim de melhorar o desenvolvimento de seus produtos, prover melhores serviços para seus clientes, aumentar a eficiência e reforçar o valor agregado. O termo ‘inovação aberta’ criado por Chesbrough (2006) principalmente para a troca de conhecimento baseada em contratos etc., como sua prática. A versão de Chesbrough de “aberto” é simplesmente um mercado para propriedade intelectual. Pelo conceito de inovação aberta de Gassmann e Enkel (2004), “fazer inovação aberta significa que uma organização precisa abrir suas sólidas fronteiras para deixar conhecimento de valor fluir com o objetivo de criar oportunidades para cooperação entre parceiros, clientes e/ou fornecedores”.

 

Crowdsourcing

 

“É um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas, criar conteúdo e soluções ou desenvolver novas tecnologias”. De acordo com a Wikipédia, um conceito complementar ao conceito de Baldwin e Hienerth (2006). Villarroel e Reis (2010) desenvolveram uma ferramenta de intra-crowdsourcing ou crowdsourcing corporativo e a deram o nome de Stock Market for Innovation (bolsa para inovação, em português), trabalhando assim num contexto ainda mais específico de inovação aberta. A ideia foi estender a resolução de problemas para um largo pool de voluntários colaboradores alocados nas diversas unidades de negócio espalhadas em localidades geográficas distintas. Dessa forma, qualquer funcionário da organização, independente de sua localidade, poderia contribuir para a inovação de qualquer unidade de negócio. Os autores relatam diversos benefícios obtidos a partir da ferramenta implantada. 

 

Open source

 

É algo completamente diferente, e seria interessante separar os dois fenômenos conceitualmente. Assume-se por “aberto”, algo colaborativo e construído com base em inovação, algo parecido com o software open source.

 

Start-ups

 

São empresas iniciantes e com estrutura ágil e pequena, em sua maioria voltadas para o mercado de tecnologia. Afirmam alguns especialistas que uma start-up é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza. 

 

Spin-off

 

Também chamado de derivagem, é um termo utilizado para designar aquilo que foi derivado de algo já desenvolvido ou pesquisado anteriormente. É utilizado em diversas áreas, como em negócios, na mídia, em tecnologia etc. Em negócios, o termo spin-off é utilizado para designar o processo de cisão entre empresas e o surgimento de uma nova empresa a partir de um grupo que já existe. Neste caso, acontece spin-off quando as organizações exploram um novo produto ou serviço a partir de um já existente.

 

 

Exemplos

 

inovacao fiat mio Fiat Mio - Considerado o primeiro carro concebido via crowdsourcing. Cerca de 18 mil usuários contribuíram com ideias para o carro urbano ideal.

 

 

 

inovacao ibmIBM - Desde 2006, a empresa mobilizou mais de 150 mil pessoas, em 104 países, em iniciativas de inovação aberta, num projeto que já recebeu mais de US$ 100 milhões em investimentos.

 

 

 inovacao BraskemBraskem  - Criou um banco online de ideias aberto a qualquer pessoa disposta a sugerir novas linhas de pesquisa. Um quarto dos pesquisadores a serviço da empresa são parceiros externos.

 

 

 inovacao googleGoogle  - Abriu ao público o código de seu sistema operacional Android, permitindo que parceiros externos sugiram melhorias e criem aplicativos compatíveis com a plataforma.

 

 

 

 embraerEmbraer - O projeto do jato ERJ-145, grande sucesso de vendas, foi criado a partir da colaboração entre a Embraer e quatro outras companhias.

 

 

 

inovacao intel1Intel  - Aberto em 2009 em Munique (Alemanha), o Intel Open Lab coordena vários programas de cooperação. A empresa também tem centros de inovação aberta na Suíça, na Irlanda e em Israel.

 

 

 

 

Apesar das diferentes nomenclaturas adotadas pelos diversos autores, pode-se observar em comum entre as iniciativas apresentadas o caráter de abertura do processo de inovação para que outras fontes pudessem ser exploradas.

 

"Não existe um único modelo de inovação aberta. Tudo depende da origem da ideia, de como ela será conduzida e de que forma chegará ao mercado”, segundo artigo publicado pela Petrobras. Aualmente, as companhias precisam descobrir qual dos caminhos para a inovação – mais aberto ou mais fechado – é o adequado ao seu caso: “Ainda há um intenso debate sobre qual modelo é o ideal. O fundamental é inovar, seja como for”, ressalta Everton Bonifácio, coordenador de treinamento interno para empresas no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec). “O modelo de negócio de cada corporação precisa ser bem pensado para se identificar exatamente o que pode ser feito de modo interno e quais recursos complementares devem ser buscados em fontes externas. Desse modo, os riscos de perdas de potenciais lucros ou de exclusividade de uso sobre determinadas tecnologias são minimizados”, completa. Roberto Murilo Carvalho de Souza, gerente de Estratégia Tecnológica do Centro de Pesquisas da Petrobras, explica a situação na prática: “A decisão também depende do estágio em que estamos em relação ao objetivo tecnológico em vista. Se estamos adiantados, pode valer mais a pena desenvolver tudo por conta própria. Se é um campo que ainda não dominamos, podemos buscar parceiros" .

 

 

Plataformas de negócios de tecnologia

 

No final da década de 1990 surgiram algumas iniciativas de criar plataformas de negócios baseados nos conceitos de Inovação Aberta na Internet. Alguns grupos resolveram criar um negócio que tenta facilitar a união da busca por tecnologias  com a oferta de tecnologias, agregando o acesso de desenvolvedores que podem propor soluções ou projetos para as demandas. Algumas plataformas mais conhecidas são: Yet2.Com (o que numa tradução livre quer dizer "está por vir") e a Innocentive. Recentemente também foi inaugurada uma plataforma brasileira: a Plataforma iTec, iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – SETEC, do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação - MCTI e da ANPEI (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras).

 

É frequente encontrar condições impostas pelos demandantes nos anúncios de busca de tecnologia. Por exemplo, período em que o interessado receberá propostas ou ofertas, algumas especificações, preço e condições comerciais oferecidos pela tecnologia ou serviço, entre outras coisas. Como curiosidade pode-se citar duas demandas que surgiram já faz alguns anos no Yet2Com. A primeira oferecia US$ 1.000.000,00 por uma ideia viável (nem era a tecnologia pronta ou protótipo) para capturar a energia de raios (descargas atmosféricas). A segunda oferecia o mesmo valor para uma ideia viável para o armazenamento da energia de raios.

 

 

Yet2Com

 

O Yet2 existe desde 1999. Foi uma das pioneiras nessa forma de realizar negócios. Nele tem uma seção, o Yet2Marketplace, que é onde você pode tanto pesquisar as tecnologias oferecidas, quanto pesquisar os desafios ou demandas.  Pode-se observar alguns detalhes na Figura 1.

 

plataformas de negocio de tecnologia: Yet2.Com Market
Figura 1: Página do Yet2.Com Market

 

Pode-se realizar uma busca direta pela tecnologia ou então visualizar todas, selecionando uma das opções destacadas no canto superior direito da Figura 1. Em seguida parece uma relação de grandes áreas de conhecimento, onde você pode buscar as tecnologias de seu interesse (Yet2.Com MarketPlace Technology Needs). Na Figura 2, pode-se observar essa página.

 

plataformas de negocio de tecnologia: Yet2com Detalhado
Figura 2: Yet2.Com MarketPlace Technology Needs

 

Na Figura 3, se pode observar um exemplo de uma demanda de tecnologia encontrada no Yet2.Com Marketplace. Trata-se de um sistema de monitoramento da condição do condutor de um automóvel por meio de reconhecimento facial, com o objetivo de aumentar a segurança do condutor e dos passageiros.

 

tecnologia: Yet2com Demand
Figura 3: Detalhes de uma demanda tecnológica

 

Observação: A plataforma do Yet2.com permite que se ofereça tecnologias desenvolvidas por você ou sua empresa, seu laboratório etc.

 

 

Innocentive

 

Empresa criada em 2001, que opera de forma semelhante à Yet2.com, porém o foco está na solução de desafios. A Innocentive mostra explicitamente em sua página dos desafios, o quanto que é oferecido pela solução. Na Figura 4 se pode observar a página inicial do Innocentive.

 

Innocentive
Figura 4: Página de abertura do Innocentive

 

"Clickando" em "Solve a Challenge", navegamos para a página retratada na Figura 5.

 

tecnologia: innocentive challenge
Figura 5: Seção de pesquisa de desafios

 

No Innocentive as soluções são remuneradas a partir de US$ 5.000,00 até US$ 1.000.000,00, dependendo da complexidade do desafio.

 

 

Plataforma iTec

 

O iTec é uma iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – SETEC, do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação - MCTI e da ANPEI, que visa ao desenvolvimento da inovação aberta com transferência de tecnologia entre as instituições de pesquisa e os setores empresariais, com a geração de novos negócios. Ela estimula o encontro entre as empresas que têm as suas demandas tecnológicas e organizações capazes de resolvê-las. A página inicial do site dessa plataforma, lançada oficialmente em Abril de 2015, pode ser vista na Figura 6.

 

tecnologia: itec
Figura 6: Página inicial do iTec

 

Na Figura 7, pode-se observar um exemplo de uma demanda detalhada. É necessário cadastra-se para acessar essa página.

 

tecnologia: itec demanda
Figura 7: Detalhes de uma demanda no iTec

 

 

Conclusões

 

Plataformas de negócios de tecnologia são ferramentas que podem trazer ótimas oportunidades para empresas, grupos de pesquisa de universidades, desenvolvedores free-lancer, tanto para comprar, vender ou desenvolver tecnologia. Se você ainda não as conhece, aproveite e invista alguns minutos do seu tempo para conhecê-las. Quem sabe você não encontra algum bom negócio?

 

 

Agradecimentos

 

Agradeço à Angela Cristina A. Puhlmann pela paciência, parceria e coautoria na elaboração desse texto.

 

 

Referências

 

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Inovação_aberta

[2] https://endeavor.org.br/o-que-e-esta-tal-de-inovacao-aberta/

[3] http://www.significados.com.br/spin-off/

[4] http://www.petrobras.com/pt/magazine/post/inovacao-aberta-onde-quer-que-a-inovacao-esteja.htm

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Henrique Frank Werner Puhlmann
Sou paulistano, 59 anos, formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (formado em 1982) e trabalho há pelo menos 33 anos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo S/A - IPT com Pesquisa e Desenvolvimento, principalmente pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico de protótipos e produtos eletrônicos dedicados.

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