Não consigo mais comprar componentes eletrônicos. Por que isso está acontecendo?

Estamos vivendo uma crise global de componentes eletrônicos. Confira um relatório completo sobre os motivos que levaram a essa crise e o cenário para os próximos anos.

Lembra-se do que aconteceu em 2008?

Na crise das hipotecas americanas em 2008, onde bancos como o Lehman Brother vieram à bancarrota, houve também uma crise de abastecimento de semicondutores, uma vez que no auge da crise diversos pedidos foram cancelados pela indústria eletro eletrônica.

Mas o importante aqui é ver como a retomada se deu após o final da crise, com crescimento acima de 20% em cada trimestre, fazendo com que o mercado voltasse aos níveis pré-crise em menos de um ano de recuperação.

image 6

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-intelligence/286050-is-the-worst-over-for-semiconductors/

Essa curva em “V”, onde uma desaceleração brusca no consumo é procedida por uma retomada tão rápida quanto a parada tem efeitos devastadores na cadeia produtiva de semicondutores, como será mostrado em detalhes neste relatório.

Mais uma vez, agora com a crise causada pelo CORONA Vírus, a indústria de semicondutores enfrenta uma curva em “V”, onde uma desaceleração brusca do consumo aconteceu entre março e setembro de 2020 e a re-aceleração está acontecendo agora, a todo vapor, mas tendo se iniciado a partir de outubro de 2020.

O mercado de semicondutores pré COVID-19 

Os semicondutores são a base da sociedade moderna. Sim, isso mesmo! A base! Todos os avanços tecnológicos que temos hoje disponíveis e que vieram evoluindo exponencialmente tem algum item de semicondutor envolvido.

Nos últimos 50 anos as revoluções tecnológicas que transformaram o comportamento do ser humano sob a face da terra passa por algum tipo de eletrônica embarcada:

image 7

Fonte: Alex Capri, “Semiconductors at the Heart of the U.S.-China Tech War: How a New Era of TechnoNationalism is Shaking Up Semiconductor Value Chains,” Hinrich Foundation, January 2020, p. 13.

Esse é um mercado pujante, com volumes de vendas que estão se aproximando dos U$ 500 Bi de faturamento anual e que está cada vez mais concentrado em poucas empresas que dominam a tecnologia e o mercado de fabricação de chips.

Previsões de especialistas estimam que esse mercado ultrapassará o volume de 1 trilhão de dólares antes de 2025.

Na tabela abaixo se pode ter uma ideia de quem eram as 15 maiores fabricantes de semicondutores no mundo em 2019.

image 8

Já os produtos eletrônicos que são feitos a partir destes semicondutores giram algo em torno de U$ 1,650 trilhão de dólares no ano de 2020, como se pode ver nos dados mostrados pelo fabricante de Wafer Siltronic.

image 9

O mercado de fabricação de wafer de silícios para abastecer os fabricantes de semicondutores ficou na ordem de U$ 11,2 bilhão de dólares em 2020. Enquanto o mercado de empresas que purificam a areia para extrair dela silício de alta qualidade a ponto de virar wafer teve um faturamento da ordem de U$ 1.2 bilhão de dólares ano passado.

Mas já em 2018 já houve um alerta de que algo não ia bem no atendimento a demanda de componentes eletrônicos ao redor do mundo. Uma crise de abastecimento afetando basicamente componentes passivos como capacitores, indutores e até resistores acendeu uma luz de alerta em todos os fabricantes de produtos eletrônicos.

Isto foi amplamente sentido pela indústria e eu documentei em artigo publicado no portal Embarcados: https://www.embarcados.com.br/capacitor-mlcc/

image 10

Uma análise histórica da venda de semicondutores no mundo dava pistas que o consumo de componentes vinha crescendo numa taxa que a indústria não iria conseguir acompanhar, como se pode ver no gráfico da STATISTA apresentado pelo Diretor de Investimentos Russ Mould no portal AJBELL, acessível através do link abaixo.

image 11

https://www.ajbell.co.uk/news/do-silicon-chip-shortages-mean-global-economy-really-motoring-again-and-if-so-what-are-best

Nota-se pela análise do gráfico acima que a venda de componentes eletrônico bateu recordes no ano de 2017 e 2018, chegando a quase 500 bilhões de dólares de faturamento em um único ano. 

Foi em 2018 que a crise de abastecimento de commodities como capacitores, resistores e outros componentes passivos explodiu e levou a um freio nesta expansão de venda de componentes. O resultado foi um ano de queda bem expressiva nas vendas em 2019. 

Outro fator determinante nesta queda foi o embate de grandes proporções entre o governo americano (do então presidente Donald Trump) contra a China, baseado em argumentações públicas questionáveis como a espionagem que itens chineses poderiam fazer sobre os celulares com padrão 5 G dos americanos.

Assim, antes da crise do COVID ser um grande problema (como mostraremos mais a frente neste relatório), a indústria de semicondutores já enfrentava dificuldades com a política de restrições a produtos Chineses imposta pelo governo de Donald Trump, onde impostos compulsórios de 25% foram aplicados a revelia.


O resultado é que em fevereiro de 2020 (antes do COVID ser declarado uma pandemia global pela OMS) a indústria de semicondutores reportou o pior ano desde 2001 (época do estouro da bolha das ponto com), com uma queda de 12% na receita bruta (U$ 412 bilhões) como se pode ver nos links abaixo e visto de forma evidente no gráfico anterior:

https://www.fudzilla.com/news/50274-semiconductor-industry-had-the-worst-year-since-2001

image 12

Isso foi amplamente noticiado. Algumas reportagens levantando os pontos e fazendo análises das causas que levaram a essa queda de mais de 12% na receita bruta (U$ 412 bilhões) pode ser encontrada em diversos sites de notícias, como por exemplo na BLOOMBERG, onde os analistas comparam essa queda como sendo apenas equivalente ao que aconteceu no mercado durante o estouro da bolhas das PONTO COM no ano 2000.

https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-02-03/chip-industry-had-worst-sales-year-since-dot-com-bubble-burst

image 13

Os sites especializados da indústria de semicondutores como um todo, como é o caso da IC INSIGHTS, publicaram relatórios onde essa queda nas vendas em 2020 fica muito evidente, como se pode ver no gráfico abaixo:

image 14

Os embargos americanos fizeram com que os fabricantes de semicondutores parassem de fazer negócios com empresas chinesas, como é o caso de corte de negócios entre a taiwanesa TSMC e a chinesa HUAWEI:

image 15

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-advisors/285833-tsmc-stops-doing-business-with-huawei/

É importante notar que essa política de bloqueio sobre as transações envolvendo semicondutores com a China já vinham antes do governo Trump e afetaram negociações bilionárias entre os dois países, onde empresas Chinesas se viram obrigadas a cancelar pedidos ou tiveram os mesmos bloqueados pelo governo americano, como mostra a tabela a seguir:

image 16

Analistas do mercado de semicondutores, como por exemplo o portal FUTURE HORIZONS, que publica análises mensais sobre essa área, já faziam alertas (antes da dura realidade imposta pelo COVID) que o principal problema do mercado de semicondutores era as políticas tarifárias americanas, com os seus 25% de impostos compulsórios para compra de circuitos integrados vindos da China.

Reproduzo a seguir um trecho do relatório de fevereiro de 2020 onde o time da FUTURE HORIZONS levanta essas questões de embargos e tarifas compulsórias aos produtos chineses.

Note que foi a primeira vez em um relatório deles em que aparecem as menções a possíveis complicações na cadeia produtiva vindas do aparecimento e espalhamento do CORONA Virus pelo mundo a fora.

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1582021122.pdf

February – 2020

image 17

Pela análise acima, já era notório que as quedas nas vendas de semicondutores estava acentuada (como os gráficos publicados anteriormente comprovam) e que as expectativas de crescimento para os anos 2020 e 2021 que já eram baixas iram ter que ser reduzidas mais ainda com a chegada do CORONA Vírus.

É muito importante entender que esses fatores abordados até aqui são uma sinalização clara para os CEOs de empresas que fabricam semicondutores de que investimentos bilionários para expansão de fábricas teriam um retorno duvidoso num curto prazo e talvez não viessem a se pagar num médio prazo.

Por outro lado, a China continua sendo um gigantesco mercado consumidor de semicondutores, não tendo ainda capacidade fabril para suprir tudo que ela consome, como se pode ver no levantamento da IC Insight.

image 18

https://anysilicon.com/china-semiconductor-market-vs-china-production-trends/

O consumo do mercado chinês sempre representou uma grande fatia do mercado global:

image 19

A demanda por epi-wafer pré COVID-19 

Na contramão da queda de faturamento e vendas nos semicondutores, como já mostrado anteriormente, a demanda por epi-wafer (matéria prima para se fabricar qualquer circuito integrado) antes da pandemia já enfrentava uma taxa de crescimento muito acima do esperado e projetado pela indústria de semicondutores como um todo.

Apenas para deixar claro sobre o que estamos falando, vale a pena uma olhada detalhada no diagrama montado pelo time da Yole Dévelopment que mostra todos os passos que levam um punhado de areia a virarem um processador de um computador de última geração.

Neste infográfico vemos que a areia passa por um processo de purificação elevado, para depois ser transformado em lingotes. Esses lingotes são fatiados e recebem tratamentos químicos muito específicos, transformando-os nos epi-wafers que são a base de matéria prima dos circuitos integrados.

image 20

Eu gravei uma série de 06 vídeos para meu canal do YouTube onde explico todo esse processo em detalhes:

O diâmetro com que os lingotes são produzidos estão intimamente correlacionados com a capacidade da indústria de produzir circuitos integrados.

Quando menor o diâmetro de um lingote, menor a quantidade de chips que podem ser produzidos a partir de um epi-wafer. O inverso é totalmente válido neste caso: lingotes com maiores diâmetros produzem epi-wafer com maior área o que leva a uma maior escala de produção de chips por epi-wafer.

Justamente por isso a indústria de semicondutores tem evoluído ano a ano em busca de processos que possam gerar lingotes de diâmetros cada vez maiores, como mostra a figura a seguir.

image 21

CRS, modified from Evan Ramstad, “Why Computer-Chip Factories from the 1980s Are Still Going Strong in Bloomington,” StarTribune, June 8, 2019.

Como wafers menores produzem uma quantidade menor de chips, fabricas com tecnologias antigas (abaixo dos 150 mm de diâmetro de lingote) acabam tendo escalas produtivas menores.

Se há um aumento de demanda e consumo, essas empresas que não investiram em tecnologias mais recentes (e que conseguem trabalhar com diâmetros maiores de epi-wafer) acabam sofrendo com a falta de matéria prima.

Deixando bem claro: empresas que estão com processos produtivos de 150 mm tem problemas de demanda quando o mercado está aquecido. Em 150 mm o volume de circuitos integrados produzidos é pequeno diante de um aumento de demanda no mercado. Se essas empresas investem em tecnologias mais recentes, mudando o processo fabril para 200 mm ou 300 mm há um aumento imediato na capacidade produtiva da empresa.

É necessário lembrar aqui que para uma empresa sair do estágio de produção de FRONT END em 150 mm e migrar para uma produção em FRONT END de 200 mm ou 300 mm todo um investimento em maquinário deve ser feito. Estamos falando de alguns bilhões de dólares investidos no estágio de FRONT END para receber os epi-wafers de maior diâmetro e fazer todos os processos para transforma-los em DIES prontos para serem enviados para o processo de BACK END.

Assim, as empresas que estão com processos fabris que podem trabalhar com epi-wafer de 150 mm tem um grande dilema: cada vês é mais escasso esse tipo de matéria prima (wafer de 150 mm) e o investimento para colocar a linha adequada para trabalhar com diâmetros maiores (200 mm ou 300 mm) é bem alto e deve demorar um tempo para gerar retorno aos acionistas.

Isso fica muito evidente ano a ano e pode ser comprovado por diversos sites especializados onde o alerta sobre se ter atingido 100% da capacidade de produzir wafers dos diâmetros menores e que só os diâmetros maiores poderiam desafogar a demanda da indústria de semicondutores.

Vejam que, de acordo com o gráfico da EXTREME TECH, a capacidade já está próxima a 100% para os wafers até 200 mm (tecnologia bem recente e que não são adotadas por todas as fábricas de semicondutores).

https://www.extremetech.com/computing/318554-a-massive-chip-shortage-is-hitting-the-entire-semiconductor-industry

image 22

É claro que essa chegada a 100% da capacidade de produção teria um impacto no preço desta matéria prima para a fabricação de semicondutores.

Mas um fator muito importante a ser considerado é a pequena quantidade de empresas existentes para fazer todo o atendimento global de wafers para os fabricantes de semicondutores.

Apenas 05 empresas detêm 90% de todo esse mercado, como se pode ver no relatório divulgado por uma destas empresas em março de 2021, a Siltronic.

image 23

https://www.siltronic.com/fileadmin/investorrelations/2021/Quartal1/20210309_Siltronic_FY_2020_Investor_Presentation.pdf

E um nível de consolidação ainda maior está acontecendo desde que a GlobalWafers (que detinha 17% do mercado) comprou a Siltronic (que detinha 13% do mercado):

https://semiengineering.com/more-silicon-wafer-consolidation/

Fabricantes de peso da área de semicondutores, como por exemplo a Taiwanesa TSMC, deixam muito claro essa dependência quando colocam nos relatórios para seus investidores que apenas 05 empresas são responsáveis por 85% de todo o wafer que é fornecido a eles:

image 24

https://investor.tsmc.com/static/annualReports/2005/pic/E-3-3.pdf

Há, portanto, uma concentração muito grande nas empresas que dominam as tecnologias para fabricação de wafer. Qualquer desarranjo na oferta e na procura deste item terá um impacto gigantesco nestas 05 empresas.

E outro fator deve ser estudado para entender como a crise do COVID afetou ainda mais os fabricantes de wafer: a massiva presença destas indústrias estão na Ásia, concentradas na Coreia do Sul, em Taiwan, no Japão e na China, como se pode ver na imagem a seguir.

image 25

Por outro lado, é necessário ter em mente que os investimentos feitos para construir uma fábrica capaz de produzir wafers de maior tamanho é sempre na casa dos bilhões de dólares. E esse dinheiro investido sempre tem que retornar aos bolsos dos acionistas em algum momento.

Quanto tempo irá demorar para este investimento começar a retornar depende de fatores, como por exemplo, a quantidade de wafers e a ocupação de capacidade fabril que se tem em uma linha como essa.

Investir bilhões de dólares em uma fábrica de wafers que não esteja, durante anos, próximo de sua capacidade máxima fabril (próximo ao 100% de produção) significa aos investidores um tempo muito grande para ver o seu dinheiro retornar.

Um levantamento da consultoria McKinsey mostra que não haverá retorno antes de 5 anos se a fábrica operar próximo ao 100% de capacidade fabril. Se essa fábrica operar a 50% da capacidade, para citar um exemplo, o prazo de retorno de investimento dobra para 10 anos.

image 26

https://www.mckinsey.com/industries/advanced-electronics/our-insights/semiconductor-design-and-manufacturing-achieving-leading-edge-capabilities

Então, para satisfazer os acionistas das empresas, que é de onde vem os bilhões de dólares necessários para as expansões, é necessário deixar as fábricas operando próximo do limite de sua capacidade fabril.

Qualquer desajuste no mercado global, como é o caso da crise do COVID-19, pode causar um desarranjo nesta delicada estrutura e causar escassez de produtos, como estamos observando neste momento pelo mundo a fora.

Num relatório elaborado pelo Banco do Japão, nota-se claramente um salto no preço desta matéria prima que está diretamente correlacionado com a capacidade de produção deste item pela indústria de semicondutores.

Nunca a lei da oferta e da procura ficou tão evidente quanto no cruzamento destes dois gráficos (capacidade fabril de wafer versus preço do item).

image 27

https://www.boj.or.jp/en/statistics/pi/cgpi_2015/index.htm/

No gráfico a seguir temos uma lista de dezembro de 2020 com a relação das empresas que mais consomem wafer de acordo com cada diâmetro padrão de mercado.

image 28

https://www.icinsights.com/news/bulletins/TSMC-Ranks-In-Top10-For-Capacity-In-Three-Wafer-Size-Categories/

É muito importante ter em mente que antes mesmo da crise do COVID-19 tornar-se o problema global que temos atualmente, o mercado de epi-wafer já estava operando muito próximo de seu limite técnico e comercial.

E que não havia certezas que pudessem fazer os CEOs investirem bilhões de dólares em novas fábricas.

Por isso mesmo a quantidade de fábricas capazes de operar nestas tecnologias só vinham sendo reduzidas ano a ano, como mostram as compilações de dados facilmente encontradas em sites especializados como o IC INSIGHITS.

https://www.icinsights.com/news/bulletins/TSMC-Ranks-In-Top10-For-Capacity-In-Three-Wafer-Size-Categories/

Cada vez mais aqueles 05 fabricantes que dominam 90% do mercado global de fabricação de wafers investem em fabricar itens com maiores diâmetros (300mm) e deixam de nvestir na fabricação de item com menores diâmetros (200 e 150 mm):

image 29

https://www.siltronic.com/fileadmin/investorrelations/2021/Quartal1/20210309_Siltronic_FY_2020_Investor_Presentation.pdf

A Tecnologia empregada em cada wafer

Se o volume de epi-wafer já era algo crítico antes da pandemia, a tecnologia que é empregada em cada wafer é outro ponto crítico a ser considerado.

Conforme o avanço tecnológico caminha para termos computadores, casas, carros, indústrias, escolas e tudo mais o que nos cerca com mais e mais eletrônica embarcada, o avanço dos microprocessadores, memórias, sensores, e tudo que está em um sistema embarcado segue algo bem similar ao que foi primeiramente pensado por Gordon Earl Moore, e que ficou conhecido pela Lei de Moore. Segundo essa lei o poder de processamento dos computadores domésticos dobraria a cada 18 meses.

Para que isso pudesse ser verdade, a maneira como se produz circuitos integrados deveria melhorar também na mesma proporção.

Essa melhora está diretamente ligada ao tamanho da tecnologia empregada na fabricação dos CIs, em nanômetros.

Uma ideia de como essa tecnologia permitiu fazer transistores cada vez menores, permitindo uma quantidade maior de transistores numa mesma área de wafer (e com isso aumentando o poder de processamento que se consegue para um chip de mesmo tamanho físico) é mostrado no gráfico a seguir:

image 30

Acontece que para conseguir fazer transistores cada vez menores é necessário maquinário cada vez mais complexo, profissionais cada vez mais capacitados e maior volume de recursos financeiros investidos.

Quanto maior o poder de processamento desejado para uma determinada aplicação, melhor tem que ter a tecnologia nele empregada, o que representa fábricas com muito custo de produção.

Isso se resume em fábricas cada vez mais caras e maior tempo para ter um retorno do investimento realizado. Essa é a principal justificativa pela enorme redução no número de empresas que conseguem atuar nas tecnologias mais recentes e que podem produzir transistores pequenos dentro dos wafers.

Uma ideia desta redução no número de players neste mercado nos últimos 20 anos pode ser vista na imagem a seguir.

image 31

https://s3.i-micronews.com/uploads/2020/11/YDR20153-High-end-performance-packaging-2020-Sample.pdf

Se pegarmos os seis maiores fabricantes globais de circuitos integrados, vemos como eles evoluíram nos últimos 05 anos (e uma previsão de evolução para os próximos 02 anos) quanto a tecnologia que eles podem empregar na fabricação de CIs.

image 32

https://www.icinsights.com/news/bulletins/Revenue-Per-Wafer-Climbs-As-Demand-Surges-For-5nm7nm-IC-Processes/

Uma questão muito importante é o investimento em fábrica e em projeto de circuitos integrados de alta tecnologia.

É claro que só haverá retorno deste investimento se o item que for produzido nestas fábricas tiver um alto volume de vendas e um grande valor agregado.

image 33
image 34
https://www.mckinsey.com/industries/advanced-electronics/our-insights/semiconductor-design-and-manufacturing-achieving-leading-edge-capabilities

É importante notar que o wafer é apenas o primeiro passo em uma cadeia complexa de produção como é a dos semicondutores.

Desde a areia ser purificada, virar lingote e virar wafer até o seu novo notebook chegar até a sua casa com o processador de última geração funcionando a todo vapor, insumos são enviados entre várias fábricas em continentes diferentes.

Cada uma destas fábricas é responsável por uma etapa deste delicado e complexo processo, exigindo mão de obra altamente qualificada e especializada (e por consequência mão de obra com altos salários e cada vez mais escassas).

Uma ideia de como esse fluxo é complexo pode ser vista no gráfico a seguir.

image 35

https://fas.org/sgp/crs/misc/R44544.pdf

Se formos analisar os 11% das fabricas que estão nos EUA, para atender a quase 50% de todo o consumo global de semicondutores, veremos que as poucas fábricas americanas (quando comparado com o número de fabricantes asiáticos) são dedicados a áreas bem específicas como processadores (caso da Intel), memórias (caso da Micron) e analógicos (Texas Instruments).

image 36

É necessário lembrar que outras commodities são necessárias para a fabricação de semicondutores. Cobre, prata e ouro, só para citar os metais nobres, estão na lista dos insumos que a indústria necessita para produzir um circuito integrado.

E esses itens também tiveram uma disparada de preços nos últimos meses, como se pode ver os gráficos abaixo:

image 37

As commodities como um todo estão em uma disparada de preços e de demanda pós covid, como mostra esse levantamento da Bloomberg:

VcgH1IlPc0JJacE6C9jTna2S7D dz WDKfmSW yNHD0zHpANBzbN4Md HG2G HLYU4

Mercado consumidor de semicondutor pré COVID-19 

Onde são vendidos os quase U$ 500 Bi de semicondutores todos os anos?

O gráfico abaixo mostra onde estão esses mercados consumidores e vai ajudar a entender como a crise do COVID nos fez chegar numa situação em que faltam circuitos integrados para produzir quase tudo que leva eletrônica embarcada.

image 38

https://fas.org/sgp/crs/misc/R46581.pdf

O mercado americano, sozinho, é responsável por quase 50% do consumo global de semicondutores. E isso vem se mantendo nestes níveis a pelo menos uma década, como se pode ver na imagem abaixo:

image 39

Worldwide and U.S. Semiconductor Industry Sales

Os tipos de semicondutores consumidos pelos americanos e pelo restante do mundo são explicitados no gráfico a seguir:

image 40

Onde vão todos esses semicondutores? Em telefones celulares, computadores, carros, internet das coisas principalmente. O gráfico a seguir mostra como de 2016 a 2021 o aumento de semicondutores dentro destes equipamentos eletrônicos foi expressivos.

image 41

O COVID-19 e a parada de produção

Dia 21 de janeiro de 2020, um homem de 50 anos que foi dar aulas em Wuhan, na China, foi o primeiro infectado pelo CORONA Vírus a ser detectado em Taiwan.

A primeira morte oficial por CORONA Vírus em Taiwan aconteceu em 16 de fevereiro de 2020, com um homem de 60 anos de idade que tinha como comorbidades Hepatite tipo B e Diabetes.

Dia 19 de marços Taiwan iniciou um procedimento de fechamento das fronteiras do país e mantendo todos os trabalhadores em casa.

Na Malásia, houve um lockdown geral de duas semanas, onde todas as fábricas tiveram que ser fechadas e os trabalhadores mantidos em casa de 17 a 31 de março de 2020.

Singapura teve o mesmo procedimento por 17 dias e teve resultados excelentes na contenção do espalhamento do CORONAVírus na sua etapa inicial.

Tratamentos como esses fizeram com que esses tigres asiáticos conseguissem rapidamente um achatamento da curva de transmissão do CORONA, como pode ser confirmado em diversas notícias espalhadas pela rede:

image 42

https://ketagalanmedia.com/2020/04/10/taiwan-singapore-coronavirus-second-phase-response/

Mas assim como aconteceu em diversas partes do mundo, também nesta parte da Ásia o trabalho das autoridades para conter o avanço do vírus teve impacto na cadeia produtiva de tudo que era feito na região.

E a indústria de semicondutores, como era de se esperar, não ficou imune a ter interrupções em sua complexa cadeia produtiva.

Um dos gigantes fabricantes de memórias na CHINA, a YMTC, foi uma das primeiras afetadas na crise do COVID, como se pode ver na notícia a seguir:

image 43

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-advisors/283765-will-the-q1-haircut-become-covid-19-crew-cut-in-q2/

A partir de março de 2020 o que se viu foi um efeito cascata em todos os pontos da cadeia produtiva de semicondutores, com fabricantes de insumos (como os fabricantes de epi-wafer) parando as suas produções, as empresas especializadas nas fases de FRONT-END e de BACK-END suspendendo a produção, etc.

Os sites especializados no assunto, como é o caso da SEMI WIKI, faziam relatórios semanais sobre quais países estavam sendo afetados pelas paradas de produção por causa dos bloqueios e lockdown impostos pelos governos locais, como se pode ver na imagem a seguir.

image 44

https://semiwiki.com/semiconductor-services/284014-semiconductor-covid-19-update/

Os analistas da FUTURE HORIZONS, especializados na área de semicondutores, publicaram em março de 2020 uma análise contundente sobre as expectativas para o mercado com base em tudo que estava acontecendo até o momento.

nI5hpeqBa4W Lrh62ZIaPCJs4jy4heM9wUNTCgxTTFablUkbF9mfKkhGoKhUAK88WpeagBXwgn qEAn8k8WP0IhcixxjPja

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1584360090.pdf

Tudo indicava que estávamos caminhando para uma recessão em níveis só vistos anteriormente durante o crash de 1929 que começou com o colapso das bolsas americanas e rapidamente se espalhou pelo resto do mundo.

É claro que com o mundo inteiro se vendo obrigado a ficar em casa para conter a expansão do vírus, diversos empregos foram cortados ao redor do globo e todas as previsões de consumo de bens eletrônicos (entre outros) despencaram.

A expectativa de compra de equipamentos eletrônicos, medida por um estudo de décadas feito pela Universidade de Michigan, demonstrou que nos primeiros meses de 2020, início da pandemia, a intenção de compra da população despencou para níveis que só haviam sido alcançados em 2012:

image 45

https://tradingeconomics.com/united-states/consumer-confidence

Ninguém tinha uma dimensão exata de quanto tempo ou quão profunda seria a crise do COVID no mercado de semicondutores, como se pode ver em artigo publicado por Robert Maire em 26 de março de 2020 no site SemiWiki.com:

image 46

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-advisors/284168-covid19-chip-cycle-how-deep-long-and-what-shape/

Ou seja: em março de 2020 o cenário que se desenhava era o pior possível, com temores de uma crise de longa duração e com impacto profundo na economia e na saúde da população.

Ninguém em sã consciência iria fazer altos investimentos em compras de dispositivos eletrônicos num momento em que o mundo estava indo para um abismo econômico do qual não se tinha nenhuma ideia que qual seria a profundidade nem a extensão.

É claro que isso iria gerar um impacto nas vendas de componentes eletrônicos no mundo.

Em abril de 2020, o time da FUTURE HORIZONS publicou em seu relatório mensal uma análise muito interessante sobre os impactos do COVID até então na indústria de semicondutores, onde ele chega a citar que nunca tinha visto nada igual em 150 anos de análise econômica mundial.

image 47

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1586941655.pdf

Assim, era necessário tentar prever quais seriam os impactos de curto e de longo prazo sobre as cadeias produtivas com a crise do COVID.

O time da SEMIWIKI fez algumas análises que podiam dar um norte sobre o que estava por vir em toda a cadeia produtiva de semicondutores:

  • O impacto de curto prazo da Covid19 está principalmente relacionado à logística
  • O impacto de longo prazo é mais sistêmico / impulsionado pela demanda
  • O impacto se estenderá pela cadeia de suprimentos em vários trimestres
  • Outras questões, como comércio, permanecem pendentes

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-advisors/284781-short-vs-long-term-covid19-impact/

A redução de postos de trabalho, principalmente os trabalhos temporários e que exigiam menor escolaridade ou menos habilidades para serem executados (trabalho menos especializados) foi um dos primeiros e mais cruéis resultados diretos destes primeiros momentos de COVID-19 no globo.

Mais de 255 milhões de pessoas se viram sem nenhuma renda de uma hora para outra, como mostram os infográficos do site VISUAL CAPITALIST:

image 48

As reduções maiores, como já explicado acima, se deram em posições de trabalho com menor especialidades e em áreas que se viram totalmente bloqueadas a partir da chegada do COVID-19, como alimentação, entretenimento, transportes e hospedagens, etc.

image 49

É óbvio que isso teria um impacto imediato no nível de consumo de bens eletrônicos ao redor do mundo, justificando assim as quedas de vendas e produções que viriam a seguir.

O trimestre em que o mundo parou

Como era de se esperar, as expectativas por redução de consumo feitas em março de 2020 vieram a ser confirmadas a partir de abril de 2020.

Uma queda imediata de 5 a 15% no consumo de semicondutores foi sentida já em abril, como foi amplamente divulgado em diversos sites de notícias internacionais.

A consultoria internacional McKinsey mostra quais foram as áreas mais afetadas por essa queda de demanda, como se pode ver na figura abaixo.

É importante notar a queda expressiva na indústria automotiva (quem iria comprar um carro num período de tempo em que todos estão trancafiados em casa por causa dos LOCKDOWN e restrições de circulação impostas pelo COVID?).

image 50

Mas diversos outros sites especializados noticiaram amplamente como essa redução no consumo impactou na indústria de semicondutores, como se pode ver algumas matérias publicada no EE TIMEs:

image 51

https://www.eetimes.com/report-chip-demand-to-drop-5-to-15-in-2020/

Todos os fabricantes começaram a revisar as produções para baixo, projetando quedas ainda maiores até o final de 2020, como se pode ver em outro artigo publicado na época no EE Times, mostrado a seguir.

image 52
https://www.eetimes.com/global-semiconductor-capex-forecast-to-drop-3-in-2020/

O impacto disso já foi mostrado em gráfico publicado anteriormente nesse relatório e que eu trago novamente aqui neste trecho para exemplificar e explicitar o que estou argumentando.

image 53

A parada de produção foi sentida em diversas áreas, como na indústria automobilística, que teve em ABRIL de 2020 um dos meses com menor produção das últimas 5 décadas (COM QUEDA DE MAIS DE 95% NAS VENDAS!):

image 54

https://www.wsts.org/esraCMS/extension/media/f/WST/4164/WSTS_nr-2019_08.pdf

Gráfico em milhões de unidades produzidas.

A produção industrial americana também teve uma redução absurda em abril de 2020, com mais de 16% de queda, como se pode ver no gráfico abaixo:

https://tradingeconomics.com/united-states/industrial-production

image 55

O mercado de bens duráveis teve um abril terrível, mas uma retomada nos meses seguintes impressionante. A justificativa é a de mais pessoas em casa, em regime de trabalho remoto, precisando adequar as residências as novas realidades, com a compra de monitores, mesas, cadeiras, computadores etc.:

https://tradingeconomics.com/united-states/durable-goods-orders

image 56

Após um mês de imensa recessão e reduções absurdas no consumo como um todo, o mês de maio chegou e foi um momento de contar todos os prejuízos que foram acumulados no período.

Mais uma vez o time da FUTURE HORIZONS, em seu relatório mensal sobre o mercado, colocava que não havia num futuro próximo um horizonte melhor do que o que se teve nos dois terríveis meses anteriores de março e abril.

image 57

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1589792643.pdf

O alerta do time da FUTURE HORIZONS era que todos deveriam revisar as previsões de crescimento para baixo.

Os analistas de mercado de semicondutores tinham como consenso que esse era um dos piores períodos vividos pela indústria de semicondutores, como se pode ver em gráficos de resultados publicados pelo time da SEMI WIKI, no link abaixo.

image 58

https://semiwiki.com/semiconductor-services/semiconductor-intelligence/286050-is-the-worst-over-for-semiconductors/

A gigante TSMC, que fabrica semicondutores para diversas companhias ao redor do mundo, publicou no seu balanço do segundo trimestre de 2020 que apenas uma área de atuação teve crescimento (HPC – High-Performance Computing Plataform (área que o 5G domina em termos de consumo de componentes eletrônicos)), todas as demais com quedas expressivas, como se pode ver no gráfico a seguir.

image 59

Outras fontes de análises mostravam reduções bilionárias nos volumes de vendas de semicondutores, em todas as áreas, como no relatório da IC INSIGHTS mostrado a seguir:

image 60

https://epsnews.com/2020/04/10/global-ic-market-forecast-lowered-from-3-to-4/

Em qualquer segmentação que se faça é possível ver o tamanho da queda nestes meses, como o que acontece quando pegamos o setor de OSD (Opto, Sensors and Discretes), mostrados abaixo:

image 61

O principal ponto que nos levou até essa crise de abastecimento

Chegamos ao principal ponto de toda a crise do COVID-19 onde decisões foram tomadas e das quais foram geradas as consequências que nos levaram até a crise atual de abastecimentos.

Ao olhar todo o histórico e cenário que tínhamos no final de maio de 2020, após 3 meses em que a terra praticamente parou em todos os aspectos (cortes de trabalho, cortes de consumo, cortes de produção) as empresas tinham alguns pontos nas mãos para decidir o que fazer até o final de 2020 e para os anos seguintes:

  • Número de desempregados aumentando muito;
  • Redução no consumo de carros, celulares, etc;
  • Nenhuma visibilidade de solução do COVID-19 num prazo inferior a um ano (mesmo que vários laboratórios e empresas estivessem em trabalhos acelerados para chegar a uma vacina contra o COVID-19, não havia real expectativa de se ter essa solução no final de 2020);
  • Todas as estimativas de crescimento para 2020 foram reduzidas a números negativos, alguns com dois dígitos.

Começou então uma onda nunca vista anteriormente na indústria de semicondutores de cancelamento de pedidos colocados.

Para dar alguns exemplos práticos: imagine as grandes montadoras de automóveis, que estavam com pátios abarrotados de veículos, linhas de produção paradas e sem nenhuma perspectiva de retorno a níveis sequer próximos ao que se tinha pré pandemia.

O mesmo sentimento e as mesmas ações foram tomadas por diversos outros setores da economia: industrial, bens de consumo, linha branca, etc.

Se havia uma previsão de consumir 100 mil unidades de uma memória para um produto industrial, por exemplo, a empresa que não tinha nenhuma perspectiva de vender essas 100 mil unidades deste produto num período de tempo inferior a um ano optou por entrar em contato com o fabricantes de semicondutor ou com o distribuidor de semicondutores e efetuar o cancelamento dos pedidos destas 100 mil unidades de memória.

Foi um efeito em cascata a partir de março, perdurando durante todo o mês de abril e chegando ao auge no mês de maio de 2020.

Tudo que está por vir na crise de abastecimento foi criado por esse cancelamento sequenciado de pedidos fazendo com que a indústria de semicondutores praticamente parasse de entregar as peças que estavam sendo produzidas nas foundries por um período.

Mas tem um detalhe aí que não foi levado em consideração pelos CEOs que tomaram as decisões de cancelar os pedidos de circuitos eletrônicos (com base nos dados que eles tinham em mãos no momento, é necessário reforçar) que é como funciona uma fábrica de semicondutores.

Não se pode simplesmente desligar todo um ecossistema de produção de circuitos integrados num dia e em outro dia ligar novamente todo esse ecossistema para que os níveis de produção voltem aos patamares anteriores.

Todas as fábricas envolvidas no processo de produção de um chip (preparação dos wafers, front-end e back-end) têm que rodar em regime 24/7 para que consigam se manter em níveis de entrega de materiais que não geram falhas de entregas, aumentos de prazos, etc.

Esses cancelamentos efetuados por diversas indústrias durante o pico de incerteza da pandemia travaram as engrenagens que mantinham a produção de semicondutores rodando.

A informação que faltou na mão dos CEOs das empresas que decidiram cancelar os pedidos que estavam colocados era uma noção de como são os prazos típicos de fabricação de semicondutores em todas as etapas da cadeia quando se tem tudo rodando perfeitamente.

Uma ideia de como isso funcionava antes da pandemia pode ser visto nas imagens a seguir.

Primeiro é necessário um estágio de pegar o material bruto (areia) e fazer uma purificação de modo a extrair silício com alto grau de pureza, o que é utilizado para fazer os lingotes.

image 62

Esses lingotes são fatiados e dão origem aos wafers.

Lembre-se que já foi esclarecido aqui no relatório que são poucas as empresas no mundo que tem tecnologia e capacidade de efetuar essa purificação do silício, produção dos lingotes e geração dos wafers.

Uma vez que os wafers estão disponíveis, entram na etapa de FRONT END e depois da etapa de BACK END, para só então termos os circuitos integrados prontos para comercialização.

Uma ideia de prazos típicos pré pandemia para as etapas de FRONT END e BACK END são mostrados abaixo:

image 63

Se você fizer as contas, imaginando que os fabricantes de wafer tem estoque imediato para entregar para as foundries iniciarem o processo de BACK END, na melhor das hipóteses teremos um circuito pronto para ser comercializados a partir de 13 semanas (9 de FRONT END + 3 de BACK END + 1 de finalização).

Num cenário um pouco mais realista esse circuito iria demorar algo em torno de 23 semanas para estar no mercado pronto para ser comercializado (16 de FRONT END + 6 de BACK END + 1 de finalização).

Mas aí vem o ponto chave! Como não se estava mais vendendo microcontroladores e outros semicondutores nos níveis antes de pandemia (já que diversos CEOs tomaram a decisão de cancelar os pedidos durante o pior momento da pandemia), reduziu-se a produção de FRONT-END. Como a produção de FRONT-END foi reduzida, reduziu-se em seguida a produção de BACK-END.

E nem essa redução na produção de BACK-END foi capaz de colocar a falta de capacidade de atendimento de epi-wafer (que já era muito crônica antes da pandemia, como extensamente explicado nos capítulos iniciais deste relatório) em dia. Mesmo com pedidos cancelados ainda havia um déficit de epi-wafer no mercado.

O cenário montado a partir de junho de 2020 era o pior possível para a indústria de semicondutores:

  • Ainda havia uma falta crônica de epi-wafer no mercado (como já explicado em capítulo anterior deste relatório);
  • A produção de BACK-END se reduziu muito;
  • A produção de FRONT-END se reduziu muito;
  • Diversos setores das indústrias estavam cancelando pedidos que já estavam colocados para o ano de 2020.

Os diversos setores da indústria não levaram em consideração que uma parada de produção da cadeia de semicondutores não pode ser reiniciada imediatamente, leva um tempo até que se possa retornar aos níveis anteriores à parada.

Esse buraco na cadeia produtiva de semicondutores, causado por essa parada e redução forçada devido aos cancelamentos de pedidos é uma das principais causas (se não a principal) do aumento nos preços e nos prazos de entrega de circuitos integrados que temos neste momento.

Se a economia retornasse a níveis antes da pandemia, crescendo de volta os 5% a 15% de perdeu nos meses críticos, haveria uma necessidade de tempo para que se atendesse a pedidos que haviam cancelados numa proporção muito maior do que as 13 a 23 semanas que tipicamente tinha-se antes.

A Bloomberg fez um infográfico que mostra como o prazo de entrega de componentes tem se comportado ao longo do tempo e os resultados mostrados em 2021 são alarmantes:

image 64

www.bloomberg.com/graphics/2021-semiconductors-chips-shortage/

O resultado foi um aumento expressivo nos prazos de entrega de semicondutores, como se pode ver no gráfico a seguir, pegando as 16 semanas mostradas pela Bloomberg e verificando o que temos atualmente:

image 65

Esse alerta foi reforçado (quase um ano depois) pelo time da SEMI WIKI em um excelente artigo de Robert Maire publicado em 11 de março de 2021, disponível no link abaixo e onde ele cita, por exemplo, que as perdas já acumuladas pela indústria automotiva da ordem de U$ 60 Bilhões podem crescer mais ainda por conta da falta de componentes eletrônicos no mercado:

https://semiwiki.com/automotive/295700-for-want-of-a-chip-the-auto-industry-was-lost/

image 66

Ou seja: o cancelamento em cascata de pedidos de semicondutores feitos por diversos setores fabris ao redor do mundo fez com que as engrenagens necessárias para se fabricar um circuito integrado diminuíssem de velocidade (em alguns casos até parando) e a re-aceleração não iria acontecer na velocidade que o mercado pediria.

Em junho de 2020 o time da FUTURE HORIZONs fez um levantamento em seu informe mensal que alguns países (principalmente os asiáticos) já pensavam em reabrir gradualmente as economias, o que poderia representar uma retomada nas atividades comerciais naquela região do mundo. Mas veremos mais à frente que isso demorou um pouco mais para acontecer. Mas quando acontecesse viria com uma velocidade que a indústria de semicondutores não iria conseguir acompanhar.

O restante do mundo (fora do mercado asiático) continuava fechado e com economias em queda.

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1592213765.pdf

image 67

https://semiwiki.com/semiconductor-services/288803-semiconductors-up-in-2020-not-so-fast/

Números chineses de produção comprovam essa retomada econômica mais acelerada do que o restante do mundo:

image 68

Com essas sinalizações, já havia uma aposta que o mercado de semicondutores deveria apresentar um crescimento expressivo assim que a crise do COVID-19 fosse superada, uma vez que todas as reduções de consumo que tiveram o pico no trimestre entre abril, maio e junho de 2020 deveriam ser revertida caso as medidas sanitárias de isolamento se mostrassem efetivas no espalhamento do vírus, permitindo com que a sociedade global pudesse a voltar a comportamentos de antes da pandemia.

A consultoria McKinsey soltou uma análise sobre isso em 18 de junho de 2020 onde ela expunha todos os pontos onde a aposta por uma retomada forte dos mercados era cada vez mais evidente.

https://www.mckinsey.com/industries/advanced-electronics/our-insights/how-the-semiconductor-industry-can-emerge-stronger-after-the-covid-19-crisis#

image 69

Os relatórios do FUTURE HORIZONs em Julho e Agosto de 2020 mostram que os estragos feitos na economia ocidental foram profundos e seriam duradouros. Mas por outro lado, os mercados asiáticos já estavam ensaiando uma retomada de produção. Este ensaio, porém, não aconteceu antes do último trimestre de 2020.

July – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1594802898.pdf

image 70

August – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1597655039.pdf

image 71

O resultado é que indústrias pujantes como é o caso da indústria Sul Coreana, tiveram em 2020 o pior resultado dos últimos 10 anos, como se pode ver em diversas reportagens da época:

http://koreabizwire.com/korean-electronics-industry-suffers-1st-setback-in-10-years-in-2019/167099

image 72

O terceiro trimestre de 2020 terminou em Setembro e o relatório do time da FUTURE HORIZONs já apontava mais um fator que poderia complicar todo o combate ao COVID-19 e ter consequências ainda maiores na economia mundial: as eleições americanas, que aconteceriam em Novembro e que tinham dois candidatos totalmente opostos em pensamentos e ações: Donald Trump, tentando a reeleição e John Biden.

September – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1600248549.pdf

image 73

O último trimestre de 2020

Esse foi o período em que CEOs das empresas que haviam cancelado os pedidos na indústria de semicondutores deveriam ter retomado as previsões de crescimento e apostado que a economia poderia voltar a patamares anteriores ao COVID-19.

Cada dia na demora desta decisão de retomar os pedidos de circuitos integrados iria impactar em algumas semanas a mais de atraso na entrega de peças em 2021, como se vera nos capítulos a seguir deste relatório.

Outubro, Novembro e Dezembro de 2020 foram meses cruciais para se retomar linhas que estavam paradas. Os dados que se tinham em mãos neste momento para tomar as decisões estavam explícitas em relatórios como os da FUTURE HORIZONs, reproduzidos a seguir:

October – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1603100302.pdf

image 74

November – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1605524183.pdf

image 75

December – 2020

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1607944189.pdf

image 76

Chegamos a dezembro com números positivos na indústria de semicondutores. Ainda não foi suficiente para cobrir todas as perdas causadas pelo pico do COVID-19, mas já davam uma sinalização clara de retomada de demanda em todo o globo.

Números que comprovam essa argumentação podem ser vistos em alguns relatórios como os da WSTS, mostrado a seguir:

image 77

https://www.wsts.org/esraCMS/extension/media/f/WST/4820/WSTS_nr-2020_11.pdf

É necessário lembrar, mais uma vez, que a parada ou redução de produção que se deu em abril, maio e junho de 2020 teria uma consequência muito forte nesta retomada de demanda em Outubro, Novembro e Dezembro de 2020.

Isso ficará muito claro nos capítulos a seguir.

A chegada das vacinas contra o COVID-19

Um fato extraordinário da ciência mundial pode ser observado por bilhões de habitantes do planeta Terra em 23 de novembro de 2020. Nesta data a Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, apresentou ao público os primeiros resultados concretos da eficiência de sua vacina contra o COVID-19.

É um consenso mundial de que o que se conseguiu neste período foi que um trabalho de 10 anos (tempo médio até que uma vacina desta magnitude estivesse disponível ao público) conseguiu ser concluído em 10 meses.

image 78

Com a divulgação pública destes estudos diversos países poderiam aprovar o uso emergencial desta vacina para conter o avanço do COVID-19.

Outras empresas como a americana Pfizer também passaram a divulgar seus dados e a terem a aprovação de alguns países para iniciar a vacinação emergencial.

Com isso, no dia 08 de dezembro de 2020 o Reino Unido tornou-se o primeiro país do Ocidente a iniciar a vacinação da população contra o novo COVID-19.

Pouco tempo depois a vacinação começou nos EUA, Canadá, União Européia e assim por diante.

No Brasil essa vacinação se iniciou apenas em 17 de janeiro de 2021, em São Paulo, com a vacina CORONA-VAC, produzida no Instituto Butantan (40 dias depois da vacinação ter se iniciado no Reino Unido).

image 79

Para o nosso contexto do mercado de semicondutores essa notícia da vacinação em massa de populações em diversos países é extraordinária!

Significa que vidas serão salvas e que se poderia retornar a estilos de vida que precisaram ser suspensos durante a pandemia.

Seria a retomada de emprego, de renda e, por consequência, de consumo.

Retomada de produção e consumo no mercado asiático

Com a chegada das tão aguardadas vacinas contra o COVID-19, o cenário mundial de consumo teve uma mudança radical de postura em relação ao que se obteve nos últimos 12 meses.

Se tivemos um “fundo de poço” nos faturamentos da indústria de semicondutores durante os meses de março, abril e junho de 2020, que viria afetar a toda a performance de vendas do ano de 2020, todas as previsões para 2021 são extremamente otimistas e mostram uma retomada mais forte do que se esperava em maio de 2020.

Dados que comprovam essa afirmação estão disponíveis em diversos relatórios, como por exemplo no divulgado pelo time da SEMI WIKI é mostrado a seguir:

image 80

https://semiwiki.com/semiconductor-services/295845-semiconductors-up-6-5-in-2020-10-in-2021/

Uma análise cuidadosa deste tipo de relatório poderia orientar um CEOs de uma grande empresa a perceber que já tinha passado da hora de retomar as atividades produtivas.

Mas, como já demonstrado exaustivamente em capítulos anteriores deste relatório, a inercia de todo o processo fabril de semicondutores não iria conseguir acompanhar a velocidade com que a retomada econômica estava precisando.

Diversos e mais variados institutos de análise e pesquisa publicaram estimativas para o mercado de semicondutores em 2021.

NENHUM publicou uma análise onde o crescimento fosse inferior a 4%. Um chegou a estimar um crescimento absurdo de 18%!!! Mas podemos ter uma média de 10% de crescimento estimado para o setor, como pode ser visto no gráfico abaixo, assinado por Bill Jewll, do SEMICONDUCTOR INTELLIGENCE:

image 81

Os motivos apontados por todos esses otimismos para a indústria de semicondutores em 2021 eram os seguintes:

1 – Retomada de vendas de automóveis, smartphones e outros mercados foram muito mais acelerados do que por exemplo no mercado de PCs.

2 – Os preços de semicondutores dispararam devido ao grande aumento de demanda em um curto espaço de tempo.

3 – A economia global começa a reabrir com a chegada da vacinação em massa contra o COVID-19

Em Agosto de 2020, o próprio Bill Jewell já havia publicado uma análise de como estava o consumo no mercado asiático. Olhar esse gráfico com a devida calma é algo que impressiona:

image 82

https://semiwiki.com/semiconductor-services/291030-electronics-production-healthy/

Como ele mesmo cita, a retomada de consumo e produção de equipamentos eletrônicos na segunda metade de 2020 é algo assustadoramente alto no mercado asiático, crescendo entre 15 e 30%.

Não há indústria de semicondutores que consiga acompanhar um crescimento de 30% de demanda sem ter que investir alguns bilhões de dólares em novas fábricas.

Quando comparado com o mercado americano nota-se que enquanto os EUA estavam em leve ascendência, o mercado asiático já vinha muito acelerado:

image 83

https://www.semiconductors.org/global-semiconductor-sales-increase-13-2-year-to-year-in-january/

O resultado só podia ser um: 2021 está sendo um ano de crescimento exponencial para a indústria de semicondutores. O aumento de vendas até março de 2021 já está na ordem dos 13,2% quando comparado com o mesmo período de 2020:

image 84

Fabricantes americanos que tem linha de produção de diversos equipamentos na Ásia, como é o caso de diversas fábricas da Apple, reportaram records de venda no primeiro trimestre de 2021, chegando a crescimentos da ordem de 57% (chegando a impressionantes U$ 100 bilhões em receitas em um trimestre pela primeira vez) quando comparado com o ano anterior, como pode ser visto em notícias em diversos portais, como no caso da REUTERS e da CNBC:

image 85

https://www.reuters.com/article/us-apple-results/apple-sees-revenue-growth-accelerating-after-setting-record-for-iphone-sales-china-strength-idUSKBN29W2TD

https://www.cnbc.com/2021/01/27/apple-aapl-earnings-q1-2021.html

image 86

Todos os setores e linhas de produtos da Apple apresentaram crescimentos expressivos no período:

  • Revenue: $111.44 billion vs. $103.28 billion estimated, up 21% year over year
  • iPhone revenue: $65.60 billion vs. $59.80 billion estimated, up 17% year over year
  • Services revenue: $15.76 billion vs. $14.80 billion estimated, up 24% year over year
  • Other Products revenue: $12.97 billion vs. $11.96 billion estimated, up 29% year over year
  • Mac revenue: $8.68 billion vs. $8.69 billion estimated, up 21% year over year 
  • iPad revenue: $8.44 billion vs. $7.46 billion estimated, up 41% year over year 
  • Gross margin: 39.8% vs. 38.0% estimated 

Os tigres asiáticos (Taiwan, Malásia, Singapura, China) apresentaram também crescimentos expressivos nas exportações, basicamente puxados pela exportação de semicondutores.

Taiwan, para dar um exemplo, chegou a quase 10% de crescimento apenas no primeiro trimestre de 2021, como se pode ver em matéria publicada na ASIA NIKKEI:

image 87

https://asia.nikkei.com/Economy/Trade/Taiwan-exports-grow-9.7-in-February-on-semiconductor-demand

Todos os outros mercados asiáticos retomaram fortemente os níveis de consumo, o que obrigou a uma retomada acelerada no nível de produção de equipamentos e produtos que estão cada vez mais dependentes de eletrônica embarcada, exigindo assim um aumento na venda de componentes eletrônicos.

Alguns especialistas da Market Research Fyture apostam em mais de 1 trilhão de dólares de faturamento do mercado de semicondutores até 2024:

image 88

https://magazine.semiconductordigest.com/html5/reader/production/default.aspx?pubname=&edid=2264db8b-be34-4de5-9b01-a5794f8cc65f

A indústria de semicondutores aguenta essa retomada?

Num capítulo anterior foi explicado como se sai de um punhado de areia e se chega a um circuito integrado.

No meio deste processo está o wafer, que é o resultado do corte dos lingotes em fatias. O diâmetro deste lingote irá determinar a área útil do wafer, que impacta diretamente na escala de produção de semicondutores no mundo.

Lingotes de diâmetros menores podem produzir menor quantidade de semicondutor. Lingotes de diâmetros maiores conseguem gerar níveis de produção maiores.

300 mm é um padrão de mercado que está sendo perseguido pela indústria de semicondutores como um todo e que está chegando a um limite operacional muito preocupante.

Em 2020, no auge da crise do COVID, onde a produção de semicondutores caiu quase 15% em alguns setores (como extensamente já explorado aqui no relatório) a demanda global por wafers de 300 mm cresceu 13%.

Isso mesmo: a venda de semicondutores caiu 15% mas a demanda por wafers de 300 mm cresceu 13%.

Há uma previsão conservadora de que até 2024, 38 novas fábricas que são capazes de processar wafers de 300 mm sejam inauguradas pelo mundo. 17 destas novas fábricas estarão localizadas em Taiwan ou na China. Com essas inaugurações concluídas, estima-se que cheguemos a 161 fábricas que podem processar wafers de 300 mm no mundo. Os números até 2019 mostram a quantidade de fábricas ao redor do mundo com essa capacidade.

image 89

https://www.semiconductors.org/chipmakers-are-ramping-up-production-to-address-semiconductor-shortage-heres-why-that-takes-time/

Serão mais de U$ 70 bilhões de investimentos ao ano para se colocar essas 38 novas fábricas para rodar até 2024.

Alguns destes números e projeções podem ser vistos numa matéria publicada na EE TIMES, disponível no link abaixo.

image 90

https://www.eetimes.eu/300mm-fab-investments-to-rise-in-2020-to-boom-in-2023/

image 91

https://www.eetimes.eu/300mm-fab-investments-to-rise-in-2020-to-boom-in-2023/

Mas uma fábrica inaugurada em 2024 não começa a produzir em capacidade máxima em 2024. Geralmente leva-se de um a dois anos para que uma fábrica de semicondutores atinja sua capacidade máxima de produção.

Então estamos falando em uma mudança de cenário que deve acontecer em 2026, se todas as estimativas se mantiverem como estão agora, em abril de 2021.

Retomada de produção e consumo global

Com população vacinada, redução nos óbitos causados pelo COVID-19 e retorno a vida que tínhamos antes da pandemia, os mercados reabriram e começam a ser retomados hábitos de consumo que foram cancelados durante os piores momentos da crise.

Ainda estamos longe de ver todo o planeta terra de volta à normalidade, mas diversos indicadores mostram que estamos caminhando para essa retomada.

A venda de carros voltou a acontecer em diversos mercados. E com isso o consumo de componentes eletrônicos com grade automotiva voltou a ser exigido para a retomada das linhas de produção.

Se você entrou em uma concessionária de veículos recentemente e notou o nível de eletrônica embarcada dentro dos carros mais simples vai entender que a demanda por componentes eletrônicos para automóveis só vem aumentando.

E se levarmos em consideração que o carro elétrico é uma realidade que veio para ficar (diversos países da União Européia já planejam não permitir mais a venda de carros a combustão nos próximos 10 anos) teremos um cenário ainda mais desafiador para a indústria de semicondutores.

image 92

https://www.mckinsey.com/industries/automotive-and-assembly/our-insights/mckinsey-electric-vehicle-index-europe-cushions-a-global-plunge-in-ev-sales

Um carro elétrico tem pelo menos o dobro de componentes eletrônicos do que tem um carro a combustão. Com isso a quantidade de componentes necessários para se produzir um veículo tem aumentado consideravelmente. Estima-se que até 2030 (quando diversos países já terão uma frota de carros elétricos relevante nas ruas) o preço de um automóvel seja em 50% de responsabilidade dos componentes eletrônicos.

Diversos analistas já projetam esse cenário, como por exemplo neste excelente artigo da EDN:

image 93

https://www.edn.com/the-price-tag-of-automotive-electronics-whats-really-at-play/

O nível de elementos eletrônicos em um carro moderno é impressionante:

image 94

Outro aspecto impactante no mercado global de semicondutores são as redes celulares de quinta geração, o 5G.

Além do amplamente divulgado ganho em velocidade de transmissão das redes 5G, toda uma infraestrutura é necessária para que essa rede funcione. As frequências de operação destas redes são tipicamente maiores do que as redes anteriores. Com isso, as áreas de cobertura das células são menores.

image 95

https://www.qorvo.com/design-hub/blog/small-cell-networks-and-the-evolution-of-5g

O impacto é claro: para ter uma cobertura equivalente ao do 4G serão necessárias muito mais células 5 G instaladas pelas cidades e centros urbanos que se deseja ter o sinal desta nova tecnologia. Nascem os conceitos de Pico e Femtocells para o 5G.

image 96

Serão necessárias quantidades muito maiores de componentes eletrônicos para produzir todas as picos e femtocell necessárias para implantar o 5G ao redor do mundo.

Sairemos do cenário de termos algumas dezenas de torres celulares instaladas em uma cidade para termos alguns milhares de pico e femtocells instaladas nos postes de energia elétrica desta mesma cidade.

image 97

https://vividcomm.com/2019/10/04/5g-small-cells/

Então passaremos a ver essas estruturas instaladas nos postes das ruas, como já é comum em países em que o 5G está sendo implementado, mostrado em algumas figuras a seguir.

image 98
image 99
image 100

É claro que essa retomada de consumo iria refletir diretamente nos resultados financeiros das empresas de semicondutores.

Um exemplo claro disso é o índice PHLX (Philadelphia Stock Exchange Index) que reúne a variação de preço de mercado das 30 maiores companhias envolvidas na cadeia primárias de projeto, distribuição, manufatura e vendas de semicondutores ao redor do mundo.

image 101

Se no pico da crise (em março de 2020) o valor do índice bateu U$ 1.250,00, no ultimo levantamento em 15 de março de 2021 (um ano depois), o índice chegou a U$ 3.011,37, ou seja, um ganho de 140,91% em menos de um ano!

image 102

A valorização expressiva do índice PHLX se deve ao aumento de lucratividade na venda de semicondutores após o pico da crise do COVID-19. Para pegar um exemplo podemos analisar como ficou a valorização da venda de OSD (Opto, Sensors and Discretes), que bateu records no final de 2020:

image 103

https://www10.edacafe.com/blogs/icinsights/2020/05/05/virus-crisis-hits-optoelectronics-sensors-actuators-and-discretes/#more-533

As empresas fabricantes de semicondutores tiveram diversos trimestres seguidos de records de vendas e faturamentos, como mostra essa reportagem da CNBC:

image 104

https://www.cnbc.com/2021/06/01/chip-foundries-see-record-revenues-amid-semiconductor-shortage.html

Em janeiro e fevereiro de 2021, o time da FUTURE HORIZONs trouxe em seus relatórios análises que corroboram toda essa retomada de atividade econômica que iria impactar diretamente no mercado de semicondutores.

January – 2021

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1611051797.pdf

image 105

February – 2021

https://www.futurehorizons.com/assets/future_horizons_newsletter_1613386001.pdf

image 106

Uma análise dos últimos dois anos em conjunto com as previsões para 2021 deixam isso ainda mais claro:

image 107

Impacto na cadeia produtiva de semicondutores

Os alertas começaram a soar na cadeia produtiva de semicondutores a partir de setembro de 2020 quando a Ásia deu sinais de reaquecimento. Estava claro que se a retomada fosse feita a níveis que estavam sendo sinalizados não seria possível atender a toda a demanda.

Ao passar do tempo ficou claro que os temores estavam corretos e que alguma coisa precisava ser feita. Assim os produtores de semicondutores aceleraram os investimentos ao máximo possível, de modo a tentar acompanhar a subida de demanda.

Isto está claro em diversas matérias divulgadas em sites especializados, como as mostradas abaixo:

image 108

O problema é que mesmo com um investimento imediato na construção de uma nova fábrica, não se tem um retorno imediato em aumento de produção. É necessário um tempo até que se possa colocar uma nova fabrica em 100% da capacidade fabril.

Assim, os prazos de produção típicos de um circuito integrados, que podiam varias de 15 a 30 semanas, começaram a aumentar muito por conta de múltiplos pedidos recolocados por todos os setores industriais globais.

image 109

E não é uma questão de mais dinheiro para resolver isso e acelerar a produção. A BLOOMBERG escreveu um artigo opinativo mostrando que, por exemplo, a CHINA gastou mais de U$ 13,7 Bilhões só em expansão de capacidade fabril de semicondutores, e que isso não foi suficiente para evitar o colapso na entrega de chips ao redor do mundo.

image 110

https://www.bloombergquint.com/opinion/china-can-t-churn-out-chips-like-other-wares-they-re-too-complex-and-costly

Ou seja: a China vem aumentando a cada ano o volume de recursos investidos para modernizar e ampliar a capacidade fabril de semicondutores, e mesmo toda essa montanha de recursos não está sendo suficiente para atender a demanda atual.

image 111

https://asia.nikkei.com/Spotlight/The-Big-Story/How-China-s-chip-industry-defied-the-coronavirus-lockdown

image 112

https://asia.nikkei.com/Business/China-tech/China-quadruples-fundraising-pace-for-chip-self-sufficiency

Dos quase U$ 500 bilhões que é o volume global de semicondutores produzidos no mundo, U$ 150 bilhões são apenas de itens chineses! E a previsão é de um forte aumento desta proporção até 2024.

image 113

https://www.eetindia.co.in/tsmcs-us-expansion-plan-may-be-accompanied-by-12-inch-supply-chain/

O governo americano, ciente de como está ficando para trás neste mercado, começou a dar incentivos para que indústrias de semicondutores se expandam ou façam novas instalações em território americano.

Com isso, a taiwanesa TSMC anunciou que irá desenvolver uma nova fábrica no estado do Arizona, que deve entrar em produção em 2024. Serão U$ 12 bilhões de investimentos até 2029 apenas nesta nova unidade da TSMC.

Mas para colocar uma fábrica de semicondutores para funcionar são necessários profissionais altamente especializados. O processo seletivo para contratar os primeiros 600 engenheiros com o nível de especialização exigido pela TSMC está aberto até agora. E não há previsão de que essas vagas serem preenchidas tão facilmente.

image 114

https://www.eenewsanalog.com/news/tsmc-hiring-arizona-wafer-fab

image 115

Ou seja: os esforços existem, estão sendo feitos, estão recebendo volumes enormes de recursos, mas não resolverão a questão de entrega em apenas um ano. Não teremos solução para isso em 2021.

Colapso na entrega

A partir de janeiro de 2021 o que se viu no mercado de semicondutores global foi algo nunca antes enfrentado, em proporções alarmantes.

A retomada econômica fez com que a indústria que utiliza semicondutores aumentasse a demanda de consumo em um número muito superior ao que se podia atender.

A consequência óbvia foi a escassez de componentes eletrônicos no mercado (chip shortage) o que causou a parada de várias linhas de produção ao redor do mundo. Desde videogames a até carros, passando por tudo que tenha eletrônica embarcada.

Não à toa isso virou notícia em diversos portais como por exemplo na CNBC, onde os CEOs dos fabricantes de videogame se digladiavam com os CEOs dos fabricantes de carros para ver quem conseguiria ter componentes eletrônicos em mãos para conseguir tocar as suas linhas de produção.

image 116

https://www.cnbc.com/2021/02/10/whats-causing-the-chip-shortage-affecting-ps5-cars-and-more.html

Computadores, notebooks, telefones celulares, sistemas industriais, tudo que tem eletrônica foi afetado pela escassez de componentes eletrônicos que se iniciou em janeiro de 2021.

image 117

https://www.reuters.com/article/us-chip-shortage-analysis/analysis-global-chip-shortage-threatens-production-of-laptops-smartphones-and-more-idUSKBN28R0ZL

É claro que o mundo inteiro se voltou para essa questão quando se notou que isso iria causar atrasos nos prazos finais de entrega dos equipamentos. E junto com esses atrasos vieram sucessivos aumentos de preço.

Os fabricantes de semicondutores vêm se posicionando informando que estão investindo bilhões de dólares em expansões fabris, mas que o retorno para isso não deve acontecer antes do final de 2021, como por exemplo disse o CEO da ON SEMI em entrevista a CNBC:

image 118

https://www.cnbc.com/2021/02/22/on-semiconductor-ceo-expects-auto-chip-backlog-to-end-by-third-quarter.html

Mesmo posicionamento feito pela INFINEON e publicado na INDUSTRY EUROPE:

image 119

https://industryeurope.com/sectors/transportation/automakers-may-have-to-overhaul-supply-chains-to-address-chip-shortage/

Mesmo assim, em cenários mais pessimistas dão conta que 2021 será um ano muito difícil para quem não fez um estoque prévio de peças e precisa ir às compras de semicondutores.

image 120

https://www.eenewspower.com/news/semiconductor-showdown-approaches

O impacto disso já pode ser sentido em diversos setores. A indústria automotiva já acumula mais de U$ 61 bilhões em perdas devido a falta de componentes eletrônicos para fabricar e entregar os carros já vendidos, como se pode ver abaixo:

image 121

https://www.extremetech.com/extreme/319627-semiconductor-shortage-could-cost-automakers-61b-in-lost-sales

image 122

Esses U$ 61 bilhões em prejuízo vem das paradas de linhas de produção de empresas como a GM, mostrada a seguir:

image 123

https://www.cnbc.com/2021/03/03/gm-extends-plant-shutdowns-due-to-global-semiconductor-chip-shortage.html

Empresas da cadeia produtiva de automóveis, como por exemplo a CONTINENTAL, também estão sofrendo paradas de linha de produção por falta de componentes eletrônicos.

image 124

https://www.bloomberg.com/news/articles/2021-03-09/continental-sees-muted-profitability-on-chip-shortage-pandemic

Nem a TESLA passou imune a uma parada de linha de produção por falta de componentes eletrônicos;

image 125

https://asia.nikkei.com/Business/Automobiles/Tesla-s-US-factory-closed-for-two-days-due-to-parts-shortages

A jornalista Cleide Silva, para o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, publicou em 12 de março de 2021, uma matéria onde lista os principais pontos que estão afetando a indústria automotiva no brasil e no mundo

https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,por-que-a-falta-de-chips-tem-parado-a-fabricacao-dos-carros,1156135

Nesta matéria ela mostra, por exemplo, que um SUV médio do mercado brasileiro tem pelo menos 300 semicondutores embarcados:

image 126

E que a escassez de componentes fez o preço disparar em até 250%:

image 127

O efeito manada e as consequências para o mundo

Com os CEOs das grandes empresas vendo as suas produções serem interrompidas por falta de componentes eletrônicos, chegou a hora de apertar o botão de pânico!

E pressionar esse botão neste momento só conseguiu agravar ainda mais a situação. Como não houve preparação nos momentos de baixa (junho, julho e agosto de 2020, momento crítico para tomar ações para a retomada de produção), e se aguardou o aquecimento das vendas para retomar as produções, o que se viu foi o mundo inteiro correndo atrás de conseguir componentes eletrônicos que não estavam disponíveis.

O resultado no capitalismo só pode ser um a este tipo de comportamento em manada: escassez de produto e aumento de preços.

Microcontroladores que antes eram entregues em prazos típicos de 20 semanas e que custavam em torno de U$ 2,00 por unidade tiveram alteração de prazo para mais de 50 semanas (quase um ano para receber a sua peça e retornar a produção de seus equipamentos) e seu preço alterado para quase U$ 10,00 (5 vezes mais caro do que em períodos pré pandemia).

Mesmo com essas condições absurdas, diversas empresas tem agora colocado os pedidos para garantir a retomada de produção. E algumas empresas colocam pedidos em dois ou três canais de distribuição diferentes, além de tentar colocar pedidos diretamente com o fabricante.

Essa duplicidade de pedidos, colocados muitas vezes em momentos de desespero por ver a linha de produção parada, só aumenta o preço dos semicondutores e mascara a real demanda de mercado que será necessária para voltar aos patamares pré pandemia.

Muitas empresas distribuidoras cobram valores adicionais para manter os pedidos na fila, de modo a garantir as entregas dentro dos novos prazos estabelecidos (e já mais altos do que o que se tinha antes da pandemia).

Ou seja: as empresas estão pagando mais caro nos semicondutores e ainda estão pagando custos mais elevados para garantir a entrega dos componentes dentro dos extensos prazos de entrega.

Grandes empresas que tenham fluxo de caixa para arcar com esses custos adicionais terão que repassar os custos para os produtos finais, e quem irá mais sentir isso em médio prazo é o cliente consumidor destes produtos.

Pequenas empresas que não conseguem arcar com esses custos adicionais se veem em condições complicadíssimas de garantia de entrega de componentes e são colocados no final da fila de espera para receber seus chips.

Uma excelente matéria mostrando como esse efeito manada na compra de semicondutores é devastador para a cadeia produtiva como um todo é mostrado no link abaixo, publicado na REUTERS.

https://www.reuters.com/article/us-chip-shortage-qualcomm-idUSKBN2B32OO

Vendo o efeito manada acontecer, os alguns fabricantes de semicondutores aboliram toda a política de descontos que existiam para grandes volumes, o que causou ainda mais aumento nos preços, como é o caso da TSMC, mostrado pelo time da TOMS HARDWARE em matéria exibida abaixo:

https://www.tomshardware.com/news/tmsc-is-reportedly-terminating-discounts-and-increasing-prices

image 128

O mercado de semicondutores está se corrigindo?

Estamos num dos maiores ciclos de investimentos em novas fábricas para semicondutores desde que o primeiro circuito integrado foi desenvolvido dentro dos laboratórios da Texas Instruments em 1958 pelo físico americano (ganhador do prêmio Nobel em 2000) Jack St. Claire Kilby.

Somente com capacidade de trabalho em wafers de 300 mm serão 38 novas fábricas espalhadas pelo mundo até 2024.

image 129

https://www.tomshardware.com/news/300mm-fab-spend-skyrocketing-38-new-fabs-expected-by-2024

Profissionais especializados para trabalhar nesta fábrica terão empregos garantidos por mais de uma década, dada a escassez de mão de obra especializada no assunto.

Postos de trabalho na Ásia e nos EUA estão abertos e não estão sendo preenchidos na velocidade em que se necessita para colocar as fábricas para funcionar.

image 130

https://www.shareandstocks.com/asml-to-recruit-600-engineers-in-taiwan/

Mas é necessário reforçar, a todo momento, que mesmo com uma fábrica inaugurada ela não terá capacidade fabril total no dia seguinte a sua inauguração.

O processo de fabricação de semicondutores é complexo e exigem etapas que não podem ser encurtadas.

Um erro em uma parte deste processo compromete todo um lote de semicondutores, que precisa ser descartado em nome da segurança do produto final e o processo reiniciado.

Todas essas fábricas que estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo tem capacidade para reverter todo esse cenário catastrófico apenas a partir de 2025.

Como está o cenário econômico mundial para os próximos anos?

Vamos olhar rapidamente para o passado dos equipamentos que tinham eletrônica embarcada. Na década de 80 alguns setores chegaram a ter crescimento da ordem de 10% em um único ano. O que sempre era reduzido quando alguma crise econômica global afetava a capacidade de consumo dos clientes finais.

Entre a crise de 98 e a crise das PONTOCOM no ano 2000, o globo passou por um período de crescimento no consumo de componentes eletrônicos muito acentuado, com valores acima de 10% ao ano.

Mas após a crise do ano 2000, todas as vezes em que se teve crescimento no consumo de componentes eletrônicos esse valor foi de no máximo 5% ao ano, como se pode ver no gráfico a seguir:

image 131

Quando chegamos na nossa mais recente e mais grave crise dos últimos dois séculos, o COVID-19, tivemos uma repetição de cenários já vistos anteriormente.

Um ano de quedas astronômicas em vendas de semicondutores (com o pico localizado em Abril de 2020) e anos seguintes de retomada muito forte do consumo (o que se está vendo a partir de Janeiro de 2021).

Todas as análises macro econômicas feitas por especialistas corroboram a visão de crescimento em 2021 e 2022, como se pode ver nos gráficos a seguir:

image 132
image 133

Mesmo que separemos por mercados consolidados ou mercados emergentes, temos visão de crescimento em 2021 e 2022:

image 134
image 135

Uma taxa de quase 10% de crescimento no mercado de semicondutores durante o ano de 2021 é apontado por todos os especialistas como uma realidade a ser aceita por todos.

Talvez 2022 não tenha um crescimento tão forte assim, mas deve se manter acima dos 5%. Uma estimativa dos especialistas é algo em torno de 6,1%, como mostra o detalhamento abaixo:

image 136

Memórias, processadores, microcontroladores entre outros tem expectativas de aumento de demanda nos próximos dois anos:

image 137
image 138
image 139

https://www.icinsights.com/services/mcclean-report/report-contents/

Conclusão

Aumento da demanda de semicondutores após a pandemia é real e inevitável.

Os fabricantes e montadores que prestam serviços para grandes marcas como é o caso da FOXCONN para a APPLE já avisam que não há nenhuma previsão que o mercado se corrija antes do último trimestre de 2022, como se pode ver abaixo:

image 140

https://www.theverge.com/2021/3/30/22358256/apple-supplier-foxconn-parts-shortages-chips-2022

Diversos setores estão retomando a sua produção a todo vapor e irão consumir cada vez mais componentes eletrônicos, como por exemplo: 

  • Telecomunicações (implementação de 5 G ao redor do mundo);
  • Automotivo (retomada da venda de automóveis);
  • Consumer (com a chegada das vacinas o público volta a consumir bens eletrônicos).

Com isso, alguns pontos têm que estar bem claros:

  • Os custos do wafer e a matéria-prima estão em níveis históricos elevados, iniciando o jogo de aumento de custos em todos os fornecedores
  • A capacidade produtiva está limitada e ficará mais apertada, gerando uma forte necessidade de programação.
  • Os estoques de suprimentos de distribuição estão em um nível muito baixo e precisam ser reabastecidos
  • Tempo de resposta de toda a cadeia produtiva está cada vez mais lento (18 a 24 meses)

Empresas como a GLOBAL FOUNDRIES, entre outras, já veio a público informar que não espera que esta escassez de componentes seja resolvida antes do último trimestre de 2022:

image 141

https://www.cnbc.com/2021/04/02/globalfoundries-ceo-on-semiconductor-shortage-and-ipo.html

O CEO da Intel já se posicionou publicamente informando que na visão da empresa essa crise de abastecimento deverá durar mais alguns anos, como se pode ver na matéria abaixo:

image 142

https://m.economictimes.com/tech/tech-bytes/intel-reiterates-global-chip-shortage-could-last-several-years/amp_articleshow/83105265.cms

Além disso, a cadeia de distribuição de semicondutores está verificando que os pedidos estão 70% acima do que é considerado normal. Alguns pontos que essa elevação no número de pedidos está causando é que:

  • Mais de 30% dos pedidos atualmente está atrasado em relação ao que o cliente esperava receber e não há capacidade fabril de melhorar estes prazos;
  • Nossos parceiros e prestadores estão com problemas de atrasos gerados por:
    • Limite da capacidade produtiva
    • Falta de matéria prima
    • Atraso no recebimento de matéria prima
    • Falta de mão de obra.

A melhor coisa a ser feita agora é colocar pedido de toda a programação para os próximos dois anos (2021 e 2022) quando se espera que a capacidade fabril retome a patamares capazes de atender a demanda.

Notificações
Notificar
guest
22 Comentários
recentes
antigos mais votados
Inline Feedbacks
View all comments
AMAURI SERGIO SARTO
AMAURI SERGIO SARTO
30/07/2021 07:59

Parabéns pelo artigo, deve ter dado muito trabalho organizar todas as informações.

Renato A. G.
Renato A. G.
19/06/2021 20:12

E o Brasil se encaminhando para exportador de comodites agrícolas e o povo achado que estamos abafando. Na política nacional cortou-se verbas para produção de vacinas e o mote é cortar verbas para pesquisas de modo geral. Dinheiro para pagar juros da dívida não falta pois o teto de gastos não inclui pagamentos de juros que está em torno de 40% da arrecadação do tesouro nacional. O Brasil é sabotado pela elite econômica que para se manter no poder sempre insistiu em nos relegar à último pais do mundo. Estávamos crescendo em tecnologia e o povo adquirindo cultura até que… Leia mais »

Euler Fink
Euler Fink
15/06/2021 15:05

Excelente artigo, muito detalhado, várias fontes, fique muito feliz de ter aparecido para mim como recomendação.
Meus parabéns pelo artigo e muito obrigado por todo seu trabalho!

Luiz Mello
Luiz Mello
15/06/2021 08:43

Meus mais efusivos parabéns. Vc escreveu um livro. Não foi só um artigo.
Gente como vc merece todo o meu respeito.
Obrigado

Mauricio Oliveira Costa
Mauricio Costa
14/06/2021 21:01

Obrigado por compartilhar este relatório super-completo sobre o cenário pré, atual e pós pandemia em relação ao setor. Parabéns pelo excelente trabalho, Alexandre!

Ricardo Prediger
Ricardo Prediger
13/06/2021 16:07

Parabéns pela excelente reunião de informações. Super esclarecedor!

GABRIEL A G MARQUES
GABRIEL A G MARQUES
13/06/2021 12:25

Excelente artigo, muito completo e certamente levou meses pra compilar todo esse material. Parabéns. Mas uma coisa ainda me incomoda, dizer que wafers vêm da areia. A matéria prima de wafers, painéis solares e outros consumidores de silício de alta pureza é quartzo e sílica, minerados em grandes escavações. Não é areia da praia ou qualquer fonte verde, e simplificar tira da equação o impacto das leis ambientais e acordos como Conflict-Free Mines. IMHO, ia ficar mais completo citando as fontes de matéria prima.

Rogerio Moreira
Membro
12/06/2021 21:21

Excelente !!!!!! É uma dissertação !!!!!!!

Ederson
Ederson
09/06/2021 12:01

Alessandro, você deve ter dedicado um bom tempo pra reunir estas informação e são de grande utilidade neste momento para programação de produção das empresas. Este trabalho foi ótimo e muito valor. Obrigado pela dedicação.

Vinicius Mylonas
Membro
09/06/2021 09:06

Super completo, obrigado por compartilhar!!!

WEBINAR

Visão Computacional para a redução de erros em processos manuais

DATA: 23/09 ÀS 17:00 H