Linus Torvalds – A infinita jornada do grande mantenedor

Linus

Na verdade, eu não sou do tipo que gosta de pessoas” não se cansa de repetir Linus Torvalds em suas várias entrevistas para edições do LinuxCon, em uma entrevista dada ao TED em 2016 e em seu livro autobiográfico de 2001, “Just for Fun”.

Linus é nada parecido com os demais gênios inovadores da era da informação, muito pelo contrário, ele parece ser uma pessoa comum como qualquer amigo nerd meu ou seu. É motivado pela diversão e muito persistente. Tem suas teorias sobre as coisas, inclusive sobre a razão da vida, gosta de falar o que pensa ao ponto de se divertir com isso, mesmo quando fala bobagens ou solta uma de suas famosas frases que dançam sapateado em algo que pode ser considerado o limiar da ética por pessoas mais conservadoras e reclama por ser levado muito a sério.

Sou um engenheiro. […] Fico perfeitamente feliz com toda essa gente andando por aí olhando as nuvens e observando as estrelas e dizendo ´Eu quero ir lá´. Mas eu estou olhando para o chão e quero arrumar o buraco que está logo à minha frente antes que eu caia nele. Esse é o tipo de pessoa que eu sou.

Linus mudou a face da Terra duas vezes, primeiro com o Linux, projeto que lançou em 1991 aos 21 anos, onde ainda continua na liderança após 26 anos. Depois com o Git, o sistema de gerenciamento de repositório que permitiu a massificação do open-source através de serviços derivados como o Atlassian, Github e Gitlab.

O Linux é um projeto incrível, é o sistema operacional mais utilizado no planeta em bilhões de dispositivos com o Android em smartphones, servidores Web e produtos eletrônicos como roteadores, setup boxes e TVs. Além da escala de uso, hoje tem-se de mil a 2 mil desenvolvedores envolvidos em cada release do Kernel que ocorre a cada período de 4 a 8 semanas. Saibam que projetos de software frequentemente falham dolorosamente com má organização de poucos desenvolvedores, enquanto a maior força do Linux é seu volume massivo de desenvolvedores que funciona devido ao grande mantenedor.

Segundo Linus, o sucesso do sistema operacional se dá porque, em primeiro lugar, é tecnicamente melhor, ou seja, mais rápido e mais estável do que os demais. Depois porque suporta muitas (mas muitas) plataformas permitindo que o sistema rode em lugares que os concorrentes não conseguem e, por fim, devido à licença GPLv2, que exige que modificações feitas no projeto sejam devolvidas à comunidade, trata-se de “código por código” como coloca Linus.

Linus começou a programar com 11 anos de idade, no colo de seu avô em Helsinque na Finlândia. Inicialmente era só uma brincadeira em que ele apenas digitava os códigos em BASIC ditados pelo avô, mas ali a sua curiosidade tornou-se a ignição do seu fascínio por computadores e em algumas semanas ele já escrevia seus próprios programas para imprimir mensagens na tela, em loop, o famoso Hello World.

Quando seu avô faleceu o computador foi deixado ao garoto, foi instalado no seu quarto, dando início a uma fase de imersão intensa em computadores onde ele só parava de utilizar a máquina para dormir e eventualmente tomar banho ou ir ao pub beber cerveja. Juntava dinheiro para a compra de periféricos e computadores melhores, quando, em 2 de janeiro de 1991, finalmente adquiriu um computador IBM clone com processador Intel 386. A compra foi financiada, pois computadores custavam muito caro naquela época. O geek recusou-se a usar o MS-DOS por achar que era uma porcaria, entretanto as opções disponíveis de UNIX eram muito caras ou muito ruins para a sua necessidade, o que acabou culminando, após algum tempo, no nerd escrevendo o seu próprio sistema operacional para o processador Intel.

Linus diz que o escreveu para uso próprio, nunca teve a intenção de comercializar ou sequer imaginava que se tornaria um projeto de uso em massa. O primeiro objetivo era aprender a programar o 386 em Assembly, para isso ele primeiro escreveu um cliente turbinado de Telnet que usava para se conectar no servidor da universidade. Após ter acrescentado um escalonador de tarefas e drivers no aplicativo, ele acabou por se dar conta que o projeto estava evoluindo para um sistema operacional e que fazia sentido desenvolvê-lo devido à falta de uma opção melhor. Quando em 25 de agosto, quase 8 meses após a aquisição do 386, ele colocou uma mensagem em um grupo de discussão anunciando o projeto que havia criado. Alguns desenvolvedores se mostraram interessados e Linus passou a receber sugestões.

Nascia neste momento o grande mantenedor.

Eu não sou um empreendedor” e “eu nunca tive um plano formal” são outras frases que o Linus repete sempre que necessário para explicar que o linux nunca foi planejado. Mesmo depois de adquirir popularidade, o Linux não é conduzido como um negócio. Pesquisa de mercado, planejamento, conhecer o cliente e as demais técnicas empreendedoras são irrelevantes para o mantenedor, como diz, “eu estou interessado pelo lado técnico da coisa” e “os aspectos comerciais são uma enorme perda de tempo”.

A partir do anúncio inicial, Linux cresceu de maneira lenta e sólida até atingir maturidade e interesse comercial, onde o projeto passou a avançar em passos largos. Nos primeiros 9 anos de desenvolvimento, o projeto atingiu 2 milhões de linha de código. Depois, em 2010, atingiu 8 milhões e hoje 22 milhões de linhas de código.

Para que o projeto se tornasse tecnicamente o melhor, Linus atuou como a voz final quanto à aceitação de um patch (unidade de modificação de código fonte, enviada pelos desenvolvedores) e sempre o fez com muita transparência e assertividade. Deixava muito claro porque uma modificação fora rejeitada e quais eram as suas expectativas no projeto (as vezes as mensagens carregavam certo grafismo nada amoroso) e assim protegeu o Kernel de receber código ruím. Sua competência técnica gerou confiança e conquistou desenvolvedores de competência também superior tornando a qualidade uma consequência natural.

Criatura, criador e demais colaboradores foram irrelevantes comercialmente durante quase uma década de desenvolvimento e isso nunca pareceu ser um problema para o Finlandês, cujo pai era comunista e cuja cultura da ganância era muito mal vista na sociedade da sua nacionalidade. Mantinha e escrevia o sistema em casa e na universidade que havia o empregado como professor auxiliar, que lhe autorizava a usar seu tempo no Linux. Frequentemente Linus cita a frase que lhe inspira “Genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração” de Thomas Edison.

Aconteceu que o crescimento da web colocou o Linux, e logo o Linus, no mapa. Foi o primeiro sistema operacional a suportar múltiplos processadores, o que o tornou uma escolha óbvia àquela aplicação e assim empresas passaram a depender e investir no projeto, como Red Hat, IBM e Oracle. Da mesma forma que ocorreu no nascimento do projeto, Linus nunca havia planejado abocanhar esse mercado, “Linux é um acidente” como pontua. Desenvolvedores escreveram os patches para suportar múltiplos processadores e Linus os aceitou porque concordou que a feature era relevante para um sistema operacional UNIX. Os patches foram escritos a partir da necessidade da comunidade e assim o Linux ia ganhando presença, qualquer empresa ou desenvolvedor que precisar de uma feature pode baixar o fonte e escrevê-la. Posteriormente isso se repetiu com o Android e com as plataformas de sistemas embarcados como os processadores ARM, quando Linux abocanhou esses outros mercados.

Estudar sobre o Linus e o seu trabalho surpreende por sua competência técnica, pela capacidade dele em se adaptar e pelo seu desapego em controlar o projeto.

Cedo no projeto, Linus se viu em uma posição em que teria de delegar. Até então ele fazia pessoalmente a revisão de cada patch submetido e com o volume de desenvolvedores crescendo a prática se tornou um gargalo. Nascia um Linus modificado, que não mais iria lidar com código fonte mas sim em organizar as relações sociais do desenvolvimento, ele delegou pedaços do Kernel a diferentes desenvolvedores (que eram os principais autores dessas partes) para serem os responsáveis em revisar as modificações. Foi através da descentralização que o projeto pode crescer a ponto de ter recebido implementações de milhões de desenvolvedores nos dias de hoje.

A hierarquia que se formou foi de respeito e confiança. Linus confiava em alguns desenvolvedores para os quais delegou pedaços do projeto, e esses desenvolvedores tinham, por sua vez, o seu círculo de confiança no qual delegaram sub pedaços das partes das quais eram responsáveis, e assim recursivamente. “O Kernel é baseado na confiança mútua, não tem hierarquia e por isso funciona, porque é assim que as pessoas se organizam naturalmente” explica Linus.

No décimo quarto ano, Linus teve de se reinventar, outra vez, “foi quando eu me dei conta que o Linux agora era um desafio social, não mais técnico”. Agora Linux era mainstream na área de servidores, estava começando a abocanhar melhor desktops com o Ubuntu e a área de embarcados e também estava a ponto de estourar com a proliferação do Android. Haviam três problemas, eram tantos desenvolvedores envolvidos que discussões calorosas e atritos pessoais começaram se tornaram constantes, havia a frustração do desenvolvimento estar sempre atrasado em relação aos avanços de hardware e o número de bugs ter crescido a ponto de consumir meses de esforço de desenvolvedores alocados apenas para debugging.

Para resolver os problemas, o líder do projeto resolveu alterar o modo como as releases eram organizadas. Ao invés de definir metas, resolveu encurtar as releases para 4 semanas (eram de 2 a 3 anos) e lançá-las com o que tiver pronto. “Dessa forma os desenvolvedores não precisariam mais correr para entregar, eles poderiam desenvolver no seu ritmo e ter certeza que os seus patches seriam lançados se não nesta, na próxima release.” e completou afirmando que a solução trouxe outros benefícios que permitiram o crescimento exponencial do projeto. O Linux, nos últimos 13 anos, cresceu de 4 para 24 milhões de linhas de código e hoje o projeto é estimado custar 2 bilhões de dólares caso fosse reescrito.

Linus diz que fez o que fez por 26 anos simplesmente porque foi divertido, e que, enquanto continuar divertido ele o continuará fazendo, assim batizou sua auto biografia de “Just for fun”.

Quando perguntado o que ele precisa para se aposentar, Linus responde que isso acontecerá quando o trabalho deixar de ser interessante, simples assim. “Eu codifico por diversão, mas eu quero codificar projetos que signifiquem algo, então cada projeto que eu fiz foi para resolver alguma coisa que eu precisava.” Da sua necessidade também surgiu o Git, que foi criado especificamente para ajudar na organização do desenvolvimento do Linux.

No seu lado profissional, Linus trabalhou como professor da faculdade de Helsinque até 1997, quando foi contratado pela Transmeta, que ficou até 2003, uma startup no vale do silício para ser líder de projeto, onde também poderia dedicar seu tempo ao Kernel. Até o momento tudo que ele havia recebido financeiramente através do Linux foi uma doação organizada pelos colegas de Kernel para pagar o financiamento do seu computador. Mas residindo no vale do silício e agora no mapa, ficou milionário com o IPO da Transmeta em 2000, quando detinha ações bonificadas da empresa, também recebeu ações da Red Hat em forma de presente, no valor de 1 milhão de dólares e hoje recebe um salário da Linux Foundation (criada para proteger o Linux) em que diz “não tenho o que reclamar, não sou um Steve Jobs ou Bill Gates mas estou muito bem.” No seu contrato com a Linux Foundation ele tem a liberdade de fazer o que quiser com o seu tempo, mas todo o software que escrever deverá ser open source.

Linus era o símbolo da cultura hacker e do software livre, embora não goste e frequentemente reclama desse tipo de rótulo que recebia. Ele nunca foi a favor de nenhum movimento, escolheu a GPLv2 porque “tinha preguiça e queria que os outros desenvolvessem para mim”, não por ideologia. Ao contrário, em seu livro revela que ele não tem paciência para posicionamentos ideológicos e que entende os dois lados das coisas, mesmo em temas polêmicos como Propriedade Intelectual e capitalismo.

Linus Torvalds possui uma personalidade realista que se alimenta do prazer em acordar todos os dias e fazer algo que gosta, sem se importar muito com o destino, mas sim em apreciar a jornada, pois como admite, não tinha interesse em imaginar o resultado nem o futuro do projeto.

Também, o jovem e adulto maduro que Linus foi e é, soube dar importância à construção do ambiente adequado para que pudesse se sentir realizado mantendo-se afastado de contratos corporativos, protegendo sua dedicação com a licença, exigindo qualidade técnica equivalente à sua e dando atenção ao processo de desenvolvimento para garantir o funcionamento das interações sociais. Protegendo o seu prazer próprio, Linus foi capaz também de proteger o prazer dos milhares de colaboradores.

Ainda no tema do da sua maturidade, Linus não demonstra apego ao projeto, hoje ele se diz facilmente substituível pelos seus confiados e deixa o Linux fluir naturalmente. Todos os mantenedores são também criadores e se diz aberto a experimentos quando sugerido pelos seus colegas. Assim como ele nunca deixou que a fama e o sucesso ofuscasse as verdadeiras razões do projeto existir: “Just for fun”.

Se mostra um homem aberto às possibilidades do futuro, confiante em si e na comunidade, sabedor que vão existir problemas no amanhã e que serão resolvidos como sempre aconteceu com os problemas do passado.

A história do Linus Torvalds remete uma simbiose entre criador e criatura em um processo cocriativo onde a jornada é o destino e altos e baixos são como as paisagens a serem apreciadas ao longo da viagem, e assim, curtindo a viagem, o homem pode criar provavelmente o maior projeto de software da civilização humana.

Linux nasceu ao acaso, cresceu em ritmo lento até o interesse comercial, foi dominando os mercados pouco a pouco, servidores, smartphones, eletrônicos, foguete espacial, equipamentos médicos, automóveis e a lista tende ao infinito. Só falta dominar os desktops, que deve acontecer em algum momento do futuro, dado o custo de se manter um Kernel proprietário nos dias de hoje.

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Romulo
Romulo
29/04/2018 20:26

Muito bom o post!

JOAO JOSE MONTEIRO DE BARROS FIDALGO
João Monteiro
30/06/2017 11:15

O livro do Linus é bom. Já o li duas vezes.

Marcos De Lima Carlos
Marcos De Lima Carlos
29/06/2017 15:57

Cara Muito Legal o seu texto. Está muito bem explicado e extremamente bem escrito, Parabéns!

Ronaldo Nunez
29/06/2017 07:38

Muito legal o texto. Nos faz refletir sobre a ambição, algo que o Linus é um pouco desprovido. Esse desinteresse pelo “algo a mais” parece ter sido o motor do seu sucesso.

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