Como agregar um hardware dedicado ao seu negócio

Este artigo é dedicado a empresas interessadas em incluir um hardware dedicado a seus modelos de negócios. Podem ser tanto empresas novas, startups, quanto empresas estabelecidas que identificaram uma nova e importante fonte de receitas ou fortalecimento de posição.

 

Me refiro a uma categoria específica de hardware. O hardware dedicado. Trata-se daquele equipamento que não possui um equivalente no mercado que seja capaz de executar todas as funcionalidades necessárias para o seu negócio. É um produto projetado e produzido sob demanda.

 

Para avaliar se você está preparado para um novo hardware, seguem algumas perguntas que irão ajudar no direcionamento da tomada de decisão:

  • Existem similares disponíveis no mercado?
  • O quanto a tecnologia presente no dispositivo é importante para o sucesso e proteção de seu negócio?
  • Quantos equipamentos você consegue se comprometer numa primeira produção?
  • Qual seria o potencial final de produção do equipamento?

 

A seguir, vamos abordar cada uma das perguntas com reflexões sobre uma potencial resposta.

 

Existem similares disponíveis no mercado?

 

Muitas empresas conseguem identificar, inicialmente, um dispositivo similar ao desejado para seu negócio em algum outro lugar. Pode ser num site de produtos oriundos da Ásia, numa visita a uma feira, um artigo de um blog ou mesmo num site ou loja de artigos eletrônicos.

 

Sensores são os principais casos. Existem diversos tipos de sensores. Mas praticamente nenhum que te atenda. É preciso inventar um: um sensor de temperatura com Wi-Fi, um sensor de pressão com Bluetooth. Tudo isso devidamente encapsulado em um gabinete mecânico hermético, que suporte a temperatura, umidade e vibração, operando com uma bateria que dure pelo menos 6 meses e, principalmente, com o menor custo possível.

 

Caso exista um dispositivo disponível no mercado, de prateleira, que tenha uma especificação próxima à desejada pela sua solução, o recomendável é entrar em contato com o fabricante para identificar a possibilidade de personalização deste dispositivo. As vezes tem-se sorte e a adaptação dispensa custos adicionais. Em caso negativo, vale a reflexão se é possível incorporar o dispositivo à solução respeitando suas características originais. Este é o melhor cenário, pois irá aproveitar os benefícios de economia de escala de seu fornecedor (preço, robustez, disponibilidade).

 

Um exemplo deste cenário: certa vez uma empresa de monitoramento de veículos nos consultou para desenvolvimento de um produto próprio, personalizado. No momento, ele trabalhava com um produto de mercado. Foi questionado a ele qual era o preço que ele pagava pelo dispositivo atual. No preço e no volume que ele comprava o produto pronto nós conseguíamos apenas comprar o módulo de comunicação celular que iria instalado na placa, bem longe de um produto final. Neste caso, ele foi orientado a continuar usando o produto atual dele.

 

 

O quanto a tecnologia presente no dispositivo é importante para o sucesso e proteção de seu negócio?

 

Boa parte dos negócios que envolvem equipamentos eletrônicos não necessariamente obriga os prestadores de serviços a se tornarem fabricantes de equipamentos, e vice-versa. Por exemplo, empresas de captura de pagamento não são fabricantes de terminais de pagamento ou empresas de rastreamento de veículos não são empresas fabricantes de rastreadores de veículos.

 

Em alguns negócios, para que se tornem viáveis, é preciso de um equipamento que não existe no mercado da forma específica na qual é necessário para a operação. São casos de negócios de nicho ou de novos negócios, que deverão ganhar escala em um segundo momento. Nessas situações, um dispositivo dedicado se faz obrigatório.

 

Esse questionamento procura evitar a armadilha de se supor que conceber um hardware próprio trará vantagens competitivas para uma empresa. Nem sempre um hardware próprio trará custos melhores do que comprar um produto de prateleira no mercado, principalmente aquele que já faz parte da cadeia de fornecimento do negócio atual.

 

Um exemplo deste cenário: uma empresa fornecedora de tecnologias para automação em ônibus nos consultou para o desenvolvimento de uma solução de gravação de vídeo a partir de câmeras instaladas nos ônibus. Esta solução ia além de um simples DVR e era um diferencial competitivo para suas atividades e seu posicionamento estratégico. Mesmo que o custo unitário de produção seja muito superior a um DVR de mercado, trata-se de um importante diferencial competitivo para os negócios da empresa.

 

 

Quantos equipamentos você consegue se comprometer numa primeira produção?

 

Esta é uma pergunta crítica. Pode parecer inocente para quem já produz produtos, seja qual for a característica deste produto (mecânica ou eletrônica). Geralmente nesta primeira produção é onde será realizada a amortização de custo do projeto do equipamento. Seja o equipamento projetado por empresa terceira ou por equipe própria.

 

Este lote de produção deve ser suficientemente grande para permitir com que o preço inicial de venda do produto seja competitivo em seu lançamento. Trata-se de uma importante etapa de investimento no produto, pois não se sabe se todo este estoque será vendido rapidamente.

 

E, por se tratar de um investimento, seu custo entra na lista dos custos anteriores de desenvolvimento do produto (projeto, prototipação, certificações, treinamentos, ...).

 

Na empresa onde trabalho essa informação é usada para realização da análise de viabilidade do projeto. Caso o equipamento a ser projetado tenha grande complexidade, exigindo um montante importante de investimento por parte do cliente no projeto, deve-se levar em consideração a expectativa de custo final de produção e uma ideia inicial de preço de venda, bem como a quantidade a ser produzida e comercializada. Dependendo dos valores destes parâmetros, o projeto não é viável economicamente.

 

Um exemplo deste cenário: a empresa foi consultada para o desenvolvimento de uma solução para automação e monitoramento de bombas de combustível. O lote inicial de produção desejado era muito baixo, em função do investimento a ser realizado. Neste caso não há produto de prateleira disponível (ou acessível). Neste caso, a diluição do investimento de projeto sobre a quantidade de itens físicos necessários tornou o projeto inviável economicamente.

 

 

Qual seria o potencial final de produção do equipamento?

 

Esta pergunta complementa a pergunta anterior. Existem negócios onde o volume produzido é reduzido. Por sua vez, alguns negócios têm volumes de produção gigantescos.

 

Com base nesta resposta, é possível definir uma expectativa de médio e longo prazo de retorno sobre o investimento de projeto do novo equipamento. E, com isso, realizar a avaliação de viabilidade do desenvolvimento de um novo produto.

 

Um exemplo deste cenário: a empresa foi consultada por uma grande empresa fabricante de brinquedos, interessada no desenvolvimento de um brinquedo inteligente. Foi passada duas opções tecnológicas, bem como seu custo de produção em grande volume e valor de projeto. Levantando todos os custos, investimentos e amortizações, esta empresa chegou a conclusão que o preço final do novo brinquedo tornava o projeto proibitivo.

 

 

Conclusão

 

Este artigo tem como proposta ser um guia inicial para reflexão sobre a tomada de decisão de desenvolvimento de um novo produto eletrônico. Todo novo produto traz oportunidades e riscos para uma empresa ou um negócio específico. Antes de partir para um novo desenvolvimento, é importante que no mínimo sejam realizadas algumas reflexões iniciais.

 

Ao final, o que se deseja é um novo serviço inovador e eficiente. De preferência, sendo prestado por um dispositivo eletrônico.

Sócio fundador da Phi Innovations e Professor das disciplinas de sistemas de tempo real e padrões e aplicações de sistemas operacionais do curso de pós graduação em eletrônica embarcada automotiva oferecido pelo SAE (Society of Automotive Engineers).

Formado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP, com especialização na Ecole Centrale de Lyon, na França, atua há mais de 10 anos em projetos de sistemas embarcados. Trabalhou com projetos de hardware e software embarcado para os setores de pagamento eletrônico, aeroespacial, defesa, segurança, equipamentos médicos, telecomunicações e energia. Atuou em projetos no Brasil e no exterior (França e Alemanha).

Começou suas atividades com Linux em 1996 e suas atividades empreendedoras em 2008. É um geek e apaixonado pelo Do-It Yourself (DIY).

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2 Comentários em "Como agregar um hardware dedicado ao seu negócio"

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Cleisson Tavares Brito
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Cleisson Tavares Brito

Dentre todos os cenários apresentados, fica a impressão que, se uma empresa decida investir em um novo produto, a quantidade de problemas se torna desafiador demais, é muito difícil diminuir os custos de um projeto se não houver uma grande demanda de produção, o que as vezes não é a realidade de muitas empresas pequenas. A impressão que fica também é que é quase impossível ter competitividade sem correr um risco muito grande, aparenta que pelo uns 90% dos projetos são inviáveis economicamente devido aos mesmos custos de desenvolvimento, materiais, componentes e etc.

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