Embarcados entrevista: Sergio Prado

No dia 13 de novembro de 2014, uma quinta-feira, os articulistas André Prado [1] e Raphael Philipe [2] tiveram a oportunidade de entrevistar o Sergio Prado, em Florianópolis. Para quem não o conhece, é um profissional que atua com desenvolvimento de software para sistemas embarcados há mais de 17 anos. É sócio-fundador da Embed­ded Lab­works [3], uma empresa especializada em serviços de consultoria e treinamento em sistemas embarcados, e mantém um blog pessoal [4].

 

Foi um dos fundadores do Embarcados, juntamento como Diego Sueiro, e pudemos, com esse bate-papo, "sugar" muita experiência de vida dessa referência em sistemas embarcados no Brasil. Rolou muito assunto interessante...como foi o seu início de carreira, quando começou a trabalhar com Linux embarcado, como foi a transição para a sua empresa, o que acha do mercado brasileiro, etc. Uma coisa ele deixa claro e temos empregado aqui no Embarcados: colaboração! Tenham em mente que ajudar e compartilhar conhecimento é fundamental nos tempos atuais.

 

Curtam o papo descontraído de boteco...

 

André: Sergio, por que a área de sistemas embarcados?

Sergio: Por que a área de sistemas embarcados? Caramba, cara… que pergunta. Não sei, eu nunca planejei estar nessa área. Eu me formei em eletrônica, em técnico eletrônico, há quase 19 anos numa época que não tinha WEB ainda. Então era só na base da pesquisa em livros. E aí trabalhei 6 anos com eletrônica, fazendo plaquinhas e então comecei a programar em Assembly...e foi! Fui trabalhar em outras empresas, trabalhei com arquiteturas bem antigas, como 68K da motorola, Z80 da Zilog, não existia ARM ainda, nada disso. Formei-me depois em Análise de Sistemas, nada a ver com a área de engenharia mas continuei nessa área. Depois fiz pós-graduação em gerenciamento de projetos - eu me imaginava como um gerente de projetos. Trabalhei oito meses numa empresa como gerente de projetos, num projeto bem bacana da TVA. Fiquei uns meses em Atlanta, nos Estados Unidos, mas eu odiei ser gerente de projetos.

 

André: Por que?

Sergio: Porque eu não gosto de burocracia. Eu gostava só da parte de gerenciar equipe, mais nada. Mas… cuidar de cronograma…Eu queria ter acesso à parte técnica e auxiliar nas funções técnicas, mas não podia. Eu não podia simplesmente me envolver na parte técnica naquela posição. O negócio era gerenciar o projeto em si. E ai acabei não gostando e voltei para a área técnica como Engenheiro senior numa empresa. Trabalhei mais quatro anos e aí...

 

André: E ai já era com linux embarcado?

Sergio: Já. Até antes mesmo…Estou trabalhando com Linux embarcado há 12 anos. Antes de eu ir para a área de gestão eu já trabalhava um pouco com Linux. Ai depois eu fui analista de projeto em um projeto onde usava Linux para setup-box. Depois saí e fui para outra empresa onde usava Linux também. Então fiquei bastante tempo trabalhando com Linux até focar na minha empresa.

 

André: E como foi essa transição para sua empresa?

Sergio: Foi bem tranquila. Eu fiz um certo pé-de-meia para ter garantia de que eu não teria problema, mas eu nunca precisei usá-lo. Eu saí basicamente com uma mão na frente e a outra atrás. Eu tinha dois prospects, um projeto e um treinamento, e eu simplesmente resolvi sair com esses dois prospects, e acabei fechando os dois.

 

André: Não estava fechado ainda?

Sergio: Não estava fechado. Ai acabei fechando o projeto e o treinamento, e fui atrás de parceria - fiz parceria com a NXP na época.

 

André: Mas foi na cara e na coragem?

Sergio: Na cara e na coragem!

 

André: Mas você conhecia alguém da NXP?

Sergio: Eu conhecia o Yoshinori porque um tempos atrás eu enviei alguns emails para NXP pedindo uma placa para portar o FreeRTOS. Então Yoshinori me mandou um email e me chamou: “Vem pra cá, vamos bater um papo”. Eu ainda era bem jovem. Aí fui até a empresa, ele me deu a plaquinha e eu portei o FreeRTOS pra ela e acabei conhecendo o pessoal da NXP. E no primeiro dia da minha empresa já fui falar com o pessoal da NXP. Eu queria uma parceria para dar treinamento e se eles emprestariam algumas placas para isso. Ai acabou rolando - eu fiquei um ano e pouco nessa parceria até fechar o escritório deles no Brasil. Depois que terminou essa parceria já fui atrás da Freescale e fechei com eles. Uma das lições mais importantes quando abri empresa foi realmente buscar boas parcerias, primeiro com a NXP e depois com a Freescale.

 

André: Com a Freescale você tem essa parceria até hoje? E como é essa parceria?

Sergio: Sim, até hoje. Não tem nada muito formal e exclusivo. Basicamente eles me ajudam com kits, documentação e suporte. Tudo que eu precisar em termos de acesso à informação eu consigo com eles e em troca eu uso as plataformas deles em todos meus treinamentos abertos. Treinamentos fechados eu tenho autonomia para utilizar a plataforma que eu quiser. Se o cliente quiser utilizar Texas, qualquer outro, sem problemas. Mas para os treinamentos abertos tenho essa parceria informal de utilizar Freescale, que eu gosto bastante, e não vejo problema algum.

 

André: E como que o mercado e as empresas enxergam seus treinamentos? É algo que eles enxergam que agrega bastante valor? É fácil de vender caso a equipe da empresa precise de um treinamento?

Sergio: Eu vejo que um dos grandes motivos de eu estar ministrando é a demanda por Linux. Já está chegando a 100 treinamentos em 3 anos. No ano passado eu ministrei quase um treinamento por semana. Foram mais de 50 semanas, mais de 40 treinamentos. O que ajudou bastante foi a demanda por conhecimento em Linux embarcado. Quando eu criei o blog comecei escrevendo sobre a placa mini2440.

 

André: Eu comprei uma na época!

Sergio: Acho que todo mundo comprou uma! Eu deveria ter também vendido a placa junto com os posts, teria ficado rico e não precisaria dar mais treinamento…porque todo mundo que converso comprou uma plaquinha mini2440 por causa dos meus posts. E aí foi isso até que começou a gerar demanda por treinamento. Na verdade acho que eu consegui entrar no momento certo. O custo de hardware começou a diminuir e o uso do Linux começou a aumentar, principalmente pela evolução e essas plaquinhas mais baratas começaram a aparecer. Foi no momento que apareceu a Beagle Board, a Beagle Board XM, e depois vieram as outras, enfim...hoje está cheio de plaquinhas no mercado e eu acabei entrando bem nesse momento onde as pessoas queriam obter conhecimento em cima dessas plaquinhas. E deu muito certo! Eu basicamente não tenho concorrente nessa área de treinamento para Linux embarcado.

 

André: E você da mais treinamento em empresa ou treinamento aberto?

Sergio: Quase que 90% em empresa!

 

André: Mas o pessoal já trabalha com Linux embarcado e querem melhorar, ou querem aprender Linux Embarcado para começar a trabalhar com isso?

Sergio: Tem de todos os tipos de caso e também tenho diferentes tipos de clientes. A maioria dos clientes são de empresas que estão migrando, saindo de projetos microcontrolados indo para projetos microprocessados, e é aí onde entra o Linux, e é aí onde eu acabo entrando!

 

André: Como que você vê o avanço do Linux embarcado no Brasil, em relação às tecnologias mais legadas como 8 bits e 16 bits? E o pessoal migrando de baremetal para Linux embarcado?

Sergio: Eu vejo como um movimento muito forte, existe um pouco de resistência e inercia por parte das pessoas para migrar. Existem empresas onde vou ministrar o treinamento, de forma que eles possam desenvolver um projeto com Linux, mas acabam não partindo no primeiro momento para desenvolver, devido àquela inercia de sair da tecnologia que eles já conhecem. Isso acontece um pouco, porém nesses três últimos anos nem se compara, as empresas realmente têm… ou estão usando já, ou estão pensando em migrar, pelo custo do hardware que diminuiu bastante e também a necessidade de se ter hoje um projeto com USB, Ethernet, Display touchscreen. É uma dificuldade tão grande para se colocar no microcontrolador que o pessoal acaba usando mesmo um negócio mais completo.

 

André: Como você enxerga o uso de novas tecnologias por empresas de grande porte? Elas estão conseguindo absorver essas tecnologias no produto?

Sergio: Eu acabo não tendo muito contato direto com o andamento do projeto nas empresas. Eu costumo entrar num ponto onde elas estão começando um projeto ou ainda não começaram. E depois eu não mantenho muito contato para saber como elas têm evoluído com o projeto. O que eu sinto é que as empresas as vezes possuem uma certa dificuldade em avançar por falta de conhecimento das tecnologias mais novas, até mesmo porque os engenheiros que se formam acabam não adquirindo esse conhecimento na universidade e acabam não se atualizando. As empresas acabam não usando vários recursos disponíveis por falta de conhecimento mesmo, sabendo que aquilo existe!

 

André: A respeito de especialistas em Linux embarcado no Brasil, que ainda são poucos, em poucas empresas. Você acredita que o cenário está mudando, e que a tendência é de precisar de mais profissionais nessa área?

Sergio: Sem dúvida! O próprio fato de eu ministrar mais de 40 treinamentos por ano mostra que a demanda por esse tipo de conhecimento é muito grande. Falta realmente gente boa nesse mercado. Porém eu acho que tem outro lado, que além de faltar, ou até tem gente boa que está muito bem empregada, o mercado, que precisa de mais profissionais, não está disposto a pagar por esse profissional com tal conhecimento. Isso acaba não motivando as pessoas a não irem para esse lado. O mercado não tem valorizado tanto o profissional com esse tipo de conhecimento.

 

André: E você vê uma razão para isso?

Sergio: A não ser a cultura, não vejo uma razão, não tem um motivo técnico para a empresa não valorizar.

 

André: O Brasil não dá muito valor à pesquisa de desenvolvimento talvez...

Sergio: É...acho que é por aí, é uma questão mais cultural mesmo.

 

André: E essa paixão que você tem por software livre, etc...como que ela surgiu? E você acha que cada vez mais pessoas estão seguindo essa cultura? Como você vê isso? Todas suas apresentações são livres...

Sergio: Acho que a gente está num mundo em que foi feito para você compartilhar. Estava até conversando com o Raphael agora a pouco, nesta semana a Microsoft liberou o código-fonte do .Net. As empresas estão percebendo que não se ganha mais dinheiro com produto, não se vende mais software dentro de uma caixinha. Você vende serviço. Então todo conceito de software-livre acho que está embasado nisso. De que software é algo que você vai dar, é um trabalho que você está divulgando. Para alguns pode ser uma espécie de marketing, para outros é uma satisfação, enfim. Mas é algo que hoje poucas pessoas, a não ser em casos bem específicos, querem pagar por isso. E acho que as empresas vão se especializar em serviços então...Eu gosto de software livre, e essa questão de você compartilhar seu conhecimento, de você ajudar outras pessoas a evoluirem, isso é algo que me motiva, e claro também uso isso como marketing pessoal. O fato de eu mostrar meu trabalho faz com que as pessoas tenham confiança em mim, e venham atrás de mim querendo os meus serviços.

 

André: Você ainda não publicou nenhum livro. Você pensa em publicar algum livro? Está escrevendo? Tem bastante coisa escrita disponível...

Sergio: Daria para pegar meu blog e transformar em três livros diferentes. Se alguém quiser fazer isso, meu blog é CC (Creative Commons), pode fazer, vender e ganhar dinheiro. Eu penso em escrever livro, recebi até convites, me falta tempo...eu sei que tempo é prioridade, então talvez falte eu priorizar, dentro da minha agenda, escrever um livro. Mas eu ainda vou fazer.

 

André: Como você vê o mercado de sistemas embarcados fora do eixo Sul-Sudeste? Tem se desenvolvido?

Sergio: Eu basicamente não vejo. Nesses três anos eu fui duas vezes para o Nordeste e uma vez para o Norte. No Norte tem a Zona Franca, que tem bastante empresas, que focam em estudos e pesquisa, então é uma região bacana. E no Nordeste tem o CESAR, que também é bem desenvolvida. Mas fora isso não vejo muita movimentação. Eu recebo bastante e-mails de pessoas dessa área pedindo para eu ir para lá, mas não tem muita demanda. Meus trabalhos estão normalmente focados em Sul e Sudeste.

 

André: E você pensa em fazer algum treinamento fora do Brasil ou on-line, alguma coisa diferente do que vem fazendo?

Sergio: Fora do Brasil sim. Tem um movimento para partir para a América Latina. On-line ainda não. O trabalho que desenvolvo gosto de fazer cara-a-cara. Eu acho que tem os dois lados. Talvez num futuro próximo eu vá para um trabalho on-line, mas eu ainda não vejo esse como um momento pra mim. Transformar um treinamento em on-line é um negócio bem diferente. Trabalho on-line tem que ter uma equipe grande por trás, gerenciando, dando suporte. Ele tem que ser muito bem feito porque você não está presente para resolver as dúvidas do pessoal, então tem que ser muito bem feito para funcionar.

 

André: Você acredita que certificações são importantes? Na área de embarcados acho que tem pouca coisa. Em software, deve ter dezenas de certificações java e mais umas cem certificações do tipo. Você acredita em certificações?

Raphael: Tem certificações ARM agora, se você quiser comentar a respeito...

Sergio: Eu não acredito nem em títulos nem em certificações. Os caras mais inteligentes que conheço são hobbyistas. Eu acho que faz parte ter uma formação, tem que ter. Se você puder tirar certificação é legal, mas isso não vai medir a sua capacidade de forma alguma. Hoje se eu realmente fosse contratar gente, eu iria para a comunidade ver quem contribui, seja com software ou de alguma outra forma, que seja uma pessoa engajada e que tenha vontade de aprender. Seria mais por esse lado do que pelo número de certificações.

 

André: Hoje em dia está bem comum colocar o github no currículo...

Sergio: É...Isso é legal..

 

André: Mas em contrapartida é dificil porque espera-se que o pessoal empregado chegue em casa em coloque material no github...

Sergio: É…mas se isso acontece isso mostra que a pessoa gosta bastante, então isso é um lado bem positivo. Você vê que a pessoa, além de ter um emprego, mantém um projeto e está contribuindo.

 

André: Quais são as maiores dificuldade que você vê em ser desenvolvedor Linux no Brasil, no sentido de empregabilidade ou capacitação? As faculdades não preparam o profissional?

Sergio: Eu não vejo dificuldade, a questão mesmo é cultural das pessoas quererem mudar, pois o Linux evoluiu. Falando em Linux sistema operacional, não o Kernel, ele evoluiu para um sistema operacional que você pode fazer o que quiser. Não existe mais limitação já que se faz muita coisa em cloud. Documentação e livros tem a vontade, pessoas, comunidades, forums, hoje não tem dificuldade nenhuma para uma pessoa aprender, uma vez que ela queira aprender. E tem toda uma cultura por trás disso, para você entrar nesse mundo de software livre. É um mundo onde as pessoas não vão te dar a resposta, é um mundo onde você tem que saber como encontrar as respostas. É um mundo diferente... talvez as pessoas ainda não tenham desenvolvido essa cultura de querer aprender, de ir atrás e ajudar. De forma que se você for ajudado você também irá ajudar. Quem vai com esse conjunto de capacidades acaba se dando muito bem. E quem não vai, querendo simplesmente resolver o seu problema acaba fugindo.

 

André: Em que você acha que o Linux deixa a desejar? O que poderia ser melhorado?

Sergio: O que o Linux deixa a desejar? Ele não faz café…

 

André: Tem cafeteira rodando Linux!

Sergio: Em termo de Kernel, falando em Kernel Linux, isso é fantático. Se for pensar ele roda em relógio, servidor, super-computador, o mesmo kernel roda em qualquer lugar, então não tem nem muito o que não fazer. Com relação ao kernel você faz qualquer coisa com ele. Em termo de sistema operacional, e é o que acho que está começando a mudar, é a questão de uso de aplicativos que exigem processamento gráfico intensivo, como jogos, editores de vídeo, que hoje ainda as pessoas ficam presas no Windows. Mas porque os drivers de placas gráficas no Windows são melhores que os drivers de placas gráfica no Linux. Que é o que está começando a mudar e acredito que vai continuar a mudar, com a questão da Valve trabalhando firme em cima de jogos para Linux. Quando chegar nesse ponto não vejo motivo nenhum para o Windows não morrer.

 

André: Eles estão ficando open-source agora...

Sergio: Pois é...Mesmo porque se você pegar as últimas noticias do mercado, por exemplo, a Adobe lançou o Photoshop em Cloud, a Valve está investindo em sistema operacional para games que está fazendo com que a Intel e a NVIDIA tenham bastante esforços para os drivers de placa de video rodarem legal no linux. Esses são dois exemplos que o sistema operacional como a gente conhece vai morrer. O negócio de você abrir a janelinha, clicar no menu iniciar na aplicação, isso vai morrer, será algo mais baseado em internet, cloud, coisa que o Windows perdeu espaço e que o Linux domina, como Redhat, tem varios competidores no mercado para isso, e a Microsoft está simplesmente fora.

 

André: Do movimento maker em geral primeiro com o Arduino depois Raspberry, BeagleBone e hoje em dia tem infinitas placas. Quais as consiferações sobre essas plataformas?

Sergio: Eu acho que tem pontos positivos e negativos. O legal é que trás muita gente para esse lado Maker. As pessoas usam a criatividade para fazer coisas que a gente nem imagina. É uma ferramentas que as pessoas usam para serem criativas e inventarem coisas que podem ajudar o ser humano de alguma forma.

Levando para o lado educacional, em alguns pontos eu acho ruim pois deixam as pessoas um pouco preguiçosas, querendo resolver os problemas rapidamente, pois quando elas forem para as empresas não vão resolver um problema usando arduino, elas terão que entender mais a fundo como aquela eletrônica funciona. Então algumas pessoas ficam um pouco mal acostumadas com essas soluções Arduino, Raspberry, .... Tem grandes méritos nas áreas educacionais e movimento makers para as pessoas criarem, mas, as vezes, parece que é uma sensação de oba-oba em que é tudo fácil.

 

André: Existem várias reportagem como um menino de 10 anos faz um projeto com Arduino.

Sergio: Pois é..

 

André: Olhando pelo lado do hardware fica dificil, pois você vai projetar uma placa e fica em R$500,00, daí o cliente…

Sergio: Coloca uma Raspberry que resolve...

 

André: E sobre o IoT que é o termo do momento, todo lugar usa esse termo?

Sergio: Eu não gosto desse termo, IoT. Eu acho que fazemos placas com comunicação wireless há muito tempo e é uma ideia bem antiga. Porém tem que ter uma palavrinha da moda e a palavra da moda agora é IoT. Em termos de negócio é uma tendencia já que o valor do hardware está diminuindo, muita gente está colocando suas aplicações em Cloud, outra palavrinha mágica. Então vamos juntar as duas coisas, vamos pegar a informação do sensor e jogar na nuvem, daí vem todo o conceito de IoT. Enfim, é mais oportunidade de trabalho para nós. Eu acho que algo que vai começar a pegar mesmo, e que estamos bem atrasados, é a questão da segurança, pois a medida que se começa a comunicar pela internet começa a ter vários problemas de segurança, por exemplo, como manter os dados seguros. É algo que na área de embedded que aqui no Brasil as pessoas não tem se preocupado muito. Mas é um mercado que vai abrir aí e quem tiver esperto pode acompanhar.

 

André: Que conselho você daria para os engenheiros de sistema embarcado em geral? Para aqueles que querem entrar na área, para os que já atuam na área…

Sergio: Conselhos...Procure uma formação, acho que é importante, pois com ela você entra no mercado, não necessariamente você não consegue adquirir os conhecimentos fora de uma formação numa universidade. Acho que a pessoa tem que ser muito autodidata, escolher uma área que ela gosta, tem que focar, não pode querer ser o bam-bam-bam de tudo. Se gosta de hardware, foca em hardware, se gosta de software, foca em software. Se gosta de software, descubra que tipo de software...aplicação, middleware, device driver, etc. Tenha um conhecimento geral, um conhecimento genérico, mas tente se especializar. Temos especialistas em VHDL, em desenvolvimento de middleware em C++,… Acredito ser extremamente importante ter uma especialidade, um foco grande, mesmo assim tendo uma visão generalista, pois você vai acabar se envolvendo em todas as partes do projeto, de uma forma ou de outra. É bom ter um conhecimento mais específico.

 

André: O que você espera do teu trabalho nos próximos anos? Nos próximos 5, 10, 20 anos...

Sergio: Vinte anos? Na verdade não espero nada. Eu nunca planejei, e há 5 anos nunca tinha imaginado que estaria 100% focado na minha empresa. No ano passado não imaginaria que teria dado mais de 40 treinamentos...Eu tenho feito meu trabalho, que é atuar legal na comunidade, ajudar as pessoas, responder cada e-mail que recebo, desenvolver um bom trabalho nas empresas, e uma coisa acaba levando à outra. Uma empresa fala bem de mim para a outra, e acabo passando por diversas empresas no Brasil. Acabo não planejando muito o meu trabalho com uma visão de 3, 4, 5 anos. Eu sei no máximo o que quero fazer no próximo ano, fora isso acabo não planejando muito. Eu gosto de trabalhar assim. Acho que ter um objetivo e trabalhar pelo objetivo às vezes te deixa um pouco cego. Eu gosto mais de ter a liberdade de fazer o que gosto. Se estiver dando certo, legal! Caso contrário, penso, repenso, vou mudando o rumo, mas continuo fazendo o que gosto, e assim vou trabalhando, resolvendo os problemas das pessoas. Acho que o principal, quando temos uma empresa, não é pensar na gente, e sim tentar alinhar duas coisas: tentar resolver um problema que existe, que é o que as pessoas têm, e aliar isso com uma capacidade que você tem. Aparentemente eu tenho uma capacidade boa de didática, o mercado tem uma necessidade muito grande por treinamentos nessa área, o que acabou juntando as duas coisas. Isso que é o importante. E eu vou corrigindo o rumo conforme vou velejando, não me preocupo muito.

 

Andre: O que tinha de questão era isso. Gostaria de acrescentar alguma coisa, Raphael?

Raphael: A última pergunta que gostaria de fazer é sobre as pessoas novas, que entram na área. Várias pessoas se formam em engenheiria mas não sabem como começar, não sabem pra onde ir. Periodicamente aparece alguém na lista de emails sis_embarcados pergutando sobre qual deve ser seu foco, se deve trabalhar com software ou hardware. Principalmente quando chega a hora da formatura...

Sergio: Isso é preocupante porque se a pessoa estudou quatro ou cinco anos e não sabe o que ela quer… Isso é extremamente preocupante. Eu acho que ela tem que responder isso e não o mercado responder pra ela porque se o mercado responder para essa pessoa, conforme o mercado varia, ela vai variar tambem. Então, ela tem que saber o que ela quer. Mas como falei, ela tem que escolher uma área de especialização. Se ela tentar atirar para todos os lados e colocar lá no curriculo, desenvolvo em PHP e desenvolvo device driver para linux, eu sempre duvido desse tipo de currículo. Tem que se especializar e ser bom em alguma coisa. Mas isso ela só vai descobrir com o tempo. As vezes ela não descobre na faculdade. Ela só descobre quando ela entra no mercado. Mas ela vai ter que descobrir sozinha, não dá pra responder essa pergunta por outra pessoa.

 

Andre: Uma questão que faltou foi a seguinte: Na última pesquisa do Embarcados e tambem na pesquisa da UBM tem apontado um crescente uso do Android em sistemas embarcados. Como você vê esse crescimento? Está ameaçando os sistemas de linux embarcados atuais ou os dois coexistem?

Sergio: Eu achei estranho essas pesquisas, as duas, tanto a nacional quanto a internacional. Eu não sei se as pessoas entenderam a pergunta. Porque talvez elas tenham entendido: Você está usando Android em uma solução sem ser embarcado? E muitas empresas usam. Fazem aplicações Android para se comunicar via WiFi, Bluetooth com o dispositivo embarcado. Tenho duvida se não foi isso que o entrevistado entendeu para que ele respondesse que estava utilizando Android porque em termos de projeto embarcado com Android no Brasil eu conheço um que não terminou, e mais nenhum. Então ver na pesquisa que 50% está usando Android causou uma certa estranheza. Acho que, em termos de Sistema Operacional, ele resolve alguns problemas, entre eles a questão da Interface Gráfica. Então se tu queres um ambiente muito amigável e conhecido, o Android é uma boa solução. Se, por exemplo, queres fazer um painel ou IHM qualquer, você não precisa treinar ninguem se você fizer com Android. Todo mundo conhece e sabe como aumenta o zoom. É uma interface bem amigável. E o fator produtividade. Você contrata programadores Java para fazer aplicativos Android e não precisa se preocupar com nada mais. É diferente então achar programador Java bom, o que é mais fácil em minha opinião, do que achar programador bom em C. Então… está muito fácil trabalhar com Android. Claro que tem todas as suas desvantagens: ele é aberto em termos, uma parte dele é fechada e outra parte é aberta, é o Google que toma conta do desenvolvimento, então não é um projeto onde a comunidade gerencia o desenvolvimento, é o Google. Você tem acesso ao código fonte, mas é o Google que manda no desenvolvimento. O hardware que vai rodar o Android é mais caro, seu projeto vai ser mais caro em termos de hardware. Então tem algumas desvantagens. Eu acho que essas pesquisas mostram mais uma motivação em querer usar e não o fato das pessoas estarem realmente usando ou que vão usar no próximo ano, por exemplo. Eu não acredito nisso ainda. Eu sei que tem uma motivação porque tenho um treinamento de Android e ministro ele em alguns lugares, acho que está numa certa motivação apenas.

 

Andre: E o uso de FPGA na indústria, você sente alguma coisa?

Sergio: Não, eu não vejo quase nenhum uso de FPGA nas empresas que eu vou. Eu não sei o porquê. Eu até te perguntaria, você, André, que é um cara de FPGA porque que eu não vejo o pessoal utilizando FPGA. Porque eu acho a ideia e os conceitos fantásticos. Talvez os chips sejam muito caros mas vão resolver alguns problemas que nós penamos para resolver com outras soluções.

 

Andre: Acho que entra na questão do preço e na dificuldade de encontrar pessoal capacitado. Se é dificil encontrar pessoal especializado em linux embarcado, encontrar alguem especializado em VHDL é mais dificil ainda. E tambem acho que o mercado não recompensa esse fato do profissional ser diferenciado e ser dificil de achar. Alem de ser caro. Hoje um chip ARM de dois dolares é super poderoso e um FPGA com o mesmo poder é bem mais caro… Mas serve muito para algumas aplicações, entre elas multimedia, telecom, processamento de sinais, mas são raras.

Sergio: Você acha que o DSP vai morrer?

 

Andre: Acho que não. Sempre tem espaço porque fica muito barato utilizar DSP para algumas soluções específicas, se comparado com o preço da solução com FPGA. Mas, por outro lado, os processsadores vão ficando bem mais capazes e os FPGAs vão ficando mais baratos. Daqui há muito, muito tempo pode ser que haja conflito.  

Rafael: Voce acha que dá pra viver de software livre?

Sergio: Viver de software livre… A Redhat vive de software livre. Boa parte da IBM hoje vive de sofware livre. A IBM tem vendido boa parte do negócio dele de produto, inclusive notebooks, pois ela sabe que se ganha dinheiro hoje com serviço. Basicamente eles possuem a equipe financiando software livre para que depois possa vender serviço em cima do software livre. Grandes empresas do mercado hoje fazem isso. Isso no nivel macro, no nivel micro do lado do desenvolvedor o software livre vai ser uma ferramenta que ele vai usar no currículo dele. O importante é que hoje as grandes empresas não analisam o currículo como antigamente só olhando a formação. Hoje as empresas também vão olhar o que o profissional tem feito on line em termos de software livre. É assim que as principais empresas de tecnologia americana contratam olhando a contribuição da pessoa na comunidade de software livre.

 

Ganhar dinheiro com software livre em si, não, pois escrever software de graça… Mas o que vai agregar, e onde você vai ganhar é agregando serviço com isso. Acho que hoje não tem como escrever software sem ser ele livre. Se você quiser criar um negócio pense em criar algo que agregue serviço em cima do que você está desenvolvendo. Hoje a tendência é uso software livre onde cada um vai usar de uma forma. As empresas tem usado para prover serviço e as pessoas podem usar o software livre para divulgação do trabalho e capacidade delas.

 

 

Referências

 

[1] https://www.embarcados.com.br/author/andrecastelan/

[2] https://www.embarcados.com.br/author/rapphilgmail-com/

[3] http://e-labworks.com/

[4] http://sergioprado.org/

 

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Rafael Moreno
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Sou seu fã, Sergio!

Bruno Castelucci
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Bruno Castelucci

Fantastico, parabens a todos os envolvidos!

Henrique Rossi
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Muito obrigado Bruno! É uma entrevista que deve ser vista por todos da área.

Abraços

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[…] Tivemos o prazer de entrevistar Clive "Max" Maxfield [7], Jack Ganssle [8] e Sergio Prado [9]. […]

Carlos Danilo Quinelato
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Danilo Quinelato

Entrevista fantástica, Sergio sou seu fã.