Editorial: Movimento Maker no Brasil, seu impacto para sistemas eletrônicos

movimento maker

O Movimento Maker é essa onda cada vez mais presente em nossa sociedade moderna ocidental, fruto do faça você mesmo, DIY (Do It Yourself) em inglês. Esse nome é dado atualmente ao crescente uso de tecnologias que são fáceis de usar e permite que as pessoas façam suas coisas, em suas casas, em seu local de trabalho, que elas possam ser responsáveis pela manutenção ou conserto ou até mesmo inventar algo novo. Dentre os protagonistas desse movimento Maker estão as placas eletrônicas Arduino e Raspberry Pi, que são as grandes responsáveis por fazer com que muita gente aprenda a programar e a trabalhar de forma simples com eletrônica, mesmo aquele que não possui formação relacionada a essa área do conhecimento. Esse movimento de inclusão digital está permitindo que pessoas que nunca tiveram oportunidade de controlar algo do mundo real, utilizando eletrônica com inteligência embarcada, consigam ser independentes e construam seus próprios dispositivos e soluções para seu cotidiano.

 

O movimento Maker é muito mais que somente essa massa de areia prensada simples de programar. FabLabs, Hacker Spaces, Maker Spaces, robôs fáceis de programar e montar, Impressora 3D, CNC, fabricação pessoal de peças, feiras Makers, tudo isso faz parte da cultura Maker. Podemos também mencionar outras áreas, como trabalhos artísticos e artesanais, que fazem uso de tecnologia.

 

Neste Editorial vamos abordar um pouco da eletrônica Maker. Vamos falar sobre a história das placas Makers de maneira superficial, dos sites e como isso repercute no Brasil. Exploramos um pouco das possibilidades e do futuro desse movimento no desenvolvimento e no surgimento de novos profissionais e empresas brasileiras. Fica claro que por traz dessas placas fáceis de programar existe muito trabalho não só de seus idealizadores e mantenedores, mas principalmente da comunidade.

 

 

Um pouco de história...começando pelo Arduino e seu papel fundamental para que tudo isso acontecesse

 

O Movimento Maker tem em seu cerne a colaboração através de licenças open source proporcionando facilidade na troca de conhecimento e uma drástica redução no tempo de desenvolvimento dos projetos. Tanto em aspectos de hardware quanto de software, muitas informações estão disponíveis abertamente, e as facilidades em incorporá-las e modificá-las fazem com que as pessoas se sintam motivadas e contribuam de volta com a comunidade.

 

A plataforma Arduino foi idealizada na Itália, por volta do ano de 2005 por Massimo Banzi e seus colegas do Instituto de Design de Interação da cidade de Ivrea. A ideia era que essa nova plataforma pudesse auxiliar no ensino de eletrônica para estudantes de design e artistas, ou seja, pessoas que não tinham o contato com a eletrônica. Pensando no público composto por estudantes, o objetivo principal foi criar uma plataforma de baixo custo, para que eles conseguissem desenvolver seus protótipos com o menor custo possível. Outro ponto interessante do projeto foi a proposta de criar uma plataforma de código aberto, hardware e software, devido ao fato que o instituto iria fechar e o projeto poderia morrer junto. Dessa forma deixaram o hardware e software abertos para a comunidade. Para abertura do hardware, foram adaptadas licenças de software livre, coisa que não existia até o momento. A abertura do projeto ajudou em muito no seu desenvolvimento e também popularizou  o novo paradigma de Open Hardware. Peessoas poderiam fazer suas placas Arduino, utilizando seus arquivos de fabricação sem utilizar o logo da empresa Arduino.

 

O desenvolvimento das camadas de software do Arduino foi baseada no projeto Wiring, uma plataforma de desenvolvimento para microcontroladores com abstração do hardware e open source, que foi desenvolvida por um dos alunos do Massimo no instituto. Também foi utilizado o processing como base para desenvolvimento da IDE. A plataforma Arduino passou por diversas etapas de desenvolvimento desde a sua idealização, em 2005, e foi sofrendo melhorias com o passar do tempo. O hardware foi baseado nos microcontroladores Atmel AVR, sendo lançadas diversas placas, com alguns updates, antes de chegar a consagrada Arduino UNO, que hoje é a placa referência da plataforma, definindo a famosa pinagem Arduino R3.

 

Hoje a plataforma é definida, segundo os criadores, como:

Arduino é uma plataforma eletrônica de código aberto baseada em um hardware e software de fácil uso. É destinada para qualquer pessoa a fazer projetos interativos.

 

Arduino Uno, imagem disponivel no site do FabLab Brasilia.
Arduino Uno, imagem disponivel no site do Brasilia Fab Lab.

 

O Arduino possui uma grande variedade de bibliotecas, sendo muito fácil e possível criar uma aplicação e validar uma ideia. A programação é de fácil entendimento, já que possui uma IDE amigável, com muitos exemplos para aplicação. Seu hardware é de baixo custo com facilidade de expansão através de shields. Os shields são placas com funcionalidades específicas que são encaixadas às placas Arduino, e junto com o programa atendem a uma determinada necessidade. Geralmente o fabricante do Shield disponibiliza uma biblioteca com diversos exemplos para sua aplicação.

 

Além dos desenvolvedores, existe uma grande comunidade composta por entusiastas e empresas que ajudam a manter a plataforma. Existe uma grande variedade de fóruns, sites e canais no Youtube comprometidos em ensinar e compartilhar informações.

 

A plataforma não para de crescer, foram lançadas placas com maior poder de processamento, como por exemplo, a Arduino Due, que usa um microcontrolador ARM Cortex-M3. Também foram lançadas placas que suportam Linux, como o caso da Arduino Yún. Por se tratar de uma plataforma de código aberto, outras empresas lançaram placas com o mesmo conceito e mantendo o padrão. Um caso bem interessante foi a placa Udoo, que não é uma placa Arduino, mas que aproveitou o padrão Arduino R3 para fortalecer seu projeto com uma grande possibilidade de aplicações. Ela foi lançada em uma campanha de financiamento coletivo no Kickstarter obtendo grande sucesso. Grandes empresas também aderiram à comunidade e lançaram plataformas que caíram nas graças do público Maker, como o caso da Intel, trazendo a Intel Galileo, que é uma placa certificada Arduino.

 

Recentemente houve uma reviravolta no projeto Arduino. Após o lançamento da plataforma, os fundadores abriram uma empresa sediada em Cambridge, sendo proprietária da marca e do domínio arduino.cc. Em paralelo um dos fundadores, Gianluca Martino, fundou uma empresa com o mesmo nome na Itália, porém isto foi omitido dos demais fundadores. Recentemente o fato foi publicado, anunciando a nova empresa sediada na Italía, denominada Arduino SRL, e lançando o domínio arduino.org. Desde então deu-se inicio a um conflito e a um processo de separação e direito de uso da marca de forma judicial. Dessa forma, hoje existem duas empresas registradas com o nome Arduino. Ambos os lados estão trabalhando para o lançamento de novas placas e soluções. Do lado do Arduino.cc, o processo de desenvolvimento aparentemente ficou mais rápido, sendo lançados novos updates da IDE mais constantemente. Outro fato notável foi a busca de novas parcerias, como a recentemente anunciada parceria com a Adafruit para produção de placas nos EUA e a entrada da Samsung no portfólio de placas certificadas Arduino, com a plataforma ARTIK e a Microsoft com seu Windows 10 certificado Arduino. Do lado do Arduino.org, nota-se uma preocupação para o lançamento de novas placas e também com a aproximação junto ao público/clientes, através das redes sociais e de eventos, como recentemente na Make Faire mas esse movimento está bem lento. Será lançada uma nova IDE por parte deles e isso pode fazer com que as duas linhas de Arduino atuais percam a compatibilidade, mas para isso precisamos aguardar. Para mais informações sobre o racha do Arduino, veja o artigo de Augusto Campos, no br-arduino.

 

 

Onde a Raspberry Pi entra na história?

 

A Raspberry Pi foi criada no Reino Unido para que crianças britânicas de 7/8 anos começassem a programar e, desde então, foi adotada por pessoas entusiastas por todo o mundo, começando a programar, principalmente, em alto nível e se apaixonaram pela praticidade da placa. Um dos fatores que contribuíram para que essa placa fizesse sucesso foi que ela era uma placa concebida com uma pequena distribuição Linux, e isso atraiu o pessoal que curte software livre. Desde então, muita informação começou a aparecer por todos os lados da internet, bem aos moldes do que já acontecia com o software livre. Agora a galera que programava finalmente tinha um hardware pequeno, do tamanho de um cartão de crédito que permitia que eles controlassem leds, motores, enfim, o mundo real - eles poderiam fazer coisas se mexerem. Um programador acostumado com linguagem de alto nível poderia agora ter acesso a controle de hardware, antes somente acessível pelo pessoal que trabalha com linguagens de baixo nível. As pessoas começaram a compartilhar código e circuitos com essa placa e, alguns anos atrás, a Raspberry já tinha alcançado a marca de 1 milhão de placas vendidas. A comunidade fiel a essa placa é quem foi a grande responsável pelo seu sucesso. O compartilhamento frequente de informações foi chave para que ela se mantivesse forte e referência como uma placa simples de usar, mesmo por programadores ou profissionais não familiarizados com linguagens de programação ou com código em baixo nível.  Desde seu lançamento a placa já sofreu alterações e ganhou algumas versões com maior poder de processamento e velocidade de acesso à memória, além de mais pinos controláveis de entrada e saída.

 

Raspberry Pi Modelo B+, imagem disponível no site da Sparkfun, https://www.sparkfun.com/products/12995
Raspberry Pi Modelo B+, disponivel no site da Sparkfun, https://www.sparkfun.com/products/12995

 

Sites, blogs, comunidades

 

Houve uma grande explosão de sites e blogs que compartilhavam conhecimento de hardware e software, além de pessoas e canais no Youtube que começaram a postar suas experiências frequentemente e ensinavam como fazer. Seus modelos de negócio eram diferentes, produziam e chamavam pessoas para produzir conhecimento. Alguns sites são especialmente importantes para que essa chama do compartilhamento de informações em projetos de sistemas eletrônicos fosse possível.

 

A Adafruit e Sparkfun, empresas americanas que produzem suas próprias placas e revendem placas Makers de terceiros, têm tutoriais de como utilizar as placas que vendem. Não somente as placas, mas também os acessórios (hardwares) para elas, itens que correspondem talvez por um faturamento maior que o da venda direta das placas.

 

A Adafruit sempre fez vídeos explicativos de como utilizar os itens que vende, ou tutoriais muito bem explicados, focados mesmo para quem não entende muito sobre eletrônica, com diversas gravuras, rascunhos e desenhos esquemáticos. Além disso, a Adafruit faz vídeos ao vivo onde Lady Ada e sua turma apresentam as novidades do mundo Maker, o que há de novo no site da Adafruit, como utilizar essas ferramentas e o que vem por aí. De uns tempos pra cá ela começou a fazer uma programação especial, onde cada dia da semana é temático, tem dia para Arduino, Wearables, compartilhe seu projeto, etc, e essa programação vai mudando conforme o público pede. Depois do racha da empresa Arduino, a Adafruit foi anunciada como a empresa que fabricará Arduinos, que não serão mais italianos e sim americanos.

 

A empresa Sparkfun também segue na linha de tutoriais e também possui suas placas exclusivas com tutoriais. A Sparkfun extende um pouco além seu papel de loja digital de eletrônica, oferecendo mais opções para que pessoas façam seus experimentos eletrônicos, não apenas ferramentas Makers.

 

O site Hackaday é composto de pessoas que disponibilizam suas habilidades para construir projetos. Nesse site é possível acompanhar a evolução de projetos e votar nos melhores. Interessante é que não existe algo feio ou bonito, existe o "hackeável". E, através da disponibilização dos métodos utilizados para "hackear" algo, o leitor entende o que está acontecendo e aprende muito sobre hardware, drivers, programação, etc. Entre os objetivos da empresa se destaca o desejo de atrair hackers e desenvolvedores que querem programar e criar.

 

Um site bem mais novo que os mencionados acima é o site Hackster.io, que também é um local na web para que as pessoas publiquem seus projetos com suas placas eletrônicas. É completamente adepto do hardware livre, tem um layout muito legal e moderno, e ali é um ótimo local para ver como as pessoas estão fazendo seus projetos em tutoriais e em vídeos. O legal é que é fácil de comprar a lista de materiais de cada projeto. Já traduzimos um artigo de Adam, um dos fundadores e líderes desse site americano. Eles estão viajando por diversas cidades dos Estados Unidos com uma réplica do carro do De Volta para o Futuro, em um evento onde convida pessoas para um hackathon.

 

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Hackaton promovido pelo Hackster.io em Seattle, disponivel em https://www.flickr.com/photos/hacksterio/

 

 

O site instructables, da Autodesk, é pioneiro nessa arte do que fazer passo a passo. Lá é um verdadeiro celeiro Maker e podemos encontrar todo tipo de atividades explicadas passo a passo e com arquivos prontos para download.  

 

O grupo Maker Media, dono da revista Makezine e proprietário do evento Maker Faire, é um dos responsáveis por transformar o movimento em uma grande festa de compartilhamento de informações. Em seus eventos, fazedores são convidados a levarem seus projetos e a mostrar sua obra de arte funcionando para o público. Tem um protótipo? Vá e mostre seu projeto. Esse movimento virou uma febre nos Estados Unidos com grandes feiras e também mini-Maker Faires. Uma das maiores acontece na casa branca em Washington DC. Nessas feiras, além do público e seus projetos, grandes players do mundo das placas eletrônicas e do meio educacional também estão presentes. A feira começou a correr o mundo todo e já viajou por diferentes países de todos os continentes. Ainda não teve uma Maker Faire no Brasil.

 

Event Photography by KMS Photography
Foto: KMS Photography, disponivel em http://www.makerfairedetroit.com/

 

As grandes corporações de software e de silício também apostam no Movimento Maker

 

As grandes empresas do ramo de semicondutores como Texas Instruments, Freescale, Renesas e Microchip também deram alguns passos na onda Maker. A TI possui sua plataforma de placas Launchpad que foi adotada pela comunidade, que portou uma versão do Wiring e criou o Energia para que os seus microcontroladores fossem programados como Arduino, aproveitando o mesmo ambiente de desenvolvimento que a empresa Arduino utiliza. A Freescale possui todas as placas Kinetis, que já conta com mais de 10 versões com diversos microcontroladores diferentes dessa empresa desde os criados para baixo consumo até os preparados para alta performance, criadas com "form factor" compatível com Arduino R3, ou seja, pegaram carona na grande quantidade disponível de shields (placas de expansão) para Arduino. Dessa forma, facilmente o desenvolvedor pode encaixar o seu shield na placa sem risco de queimar, ou sem necessidade de criar um hardware especial. A Renesas também lançou uma placa com um microcontrolador de sua linha com a mesma proposta e com pinagem Arduino. A Microchip e Cypress possuem diversas placas chamadas ChipKit com a mesma proposta de pinagem e que também podem ser programadas diretamente de acordo com o software que é desenvolvido com Arduino, mas utilizando microcontroladores PIC.

 

A gigante Intel entrou pesado na onda Maker, mas foi de forma diferente. Lançou a placa Galileo com processador Intel com arquitetura x86 e que poderia ser programada como um grande Arduino. Essa placa teve duas versões e a Intel logo em seguida lançou a Curie e a Edison, que também têm duas versões. A versão mais nova da Edison é a placa da vez e a empresa está investindo pesado nela, se firmando a cada dia mais como uma das empresas pioneiras do Maker e internet das coisas. Tem muito material disponível já na internet e a Intel mantém um fórum somente para ajudar Makers do mundo todo com seus experimentos. O Intel RoadShow é um evento que está acontecendo no mundo inteiro e que convida os Makers a mostrar seus projetos e a vir desenvolver um dia todo com a plataforma Intel Edison.

 

A Microsoft lançou há pouco tempo o Windows 10 compatível com Placas Makers e certificado Arduino. Diversas placas suportam Windows 10, incluindo a Raspberry Pi, a preferida dos Makers. Ela lançou um site especial para o movimento Maker, para projetos construídos com Windows 10, onde já postou de imediato como fazer o Windows 10 rodar na Raspberry Pi. Também fez uma parceria com o site Hackster.io, onde pessoas são convidadas a postar seus projetos utilizando o mais novo sistema operacional da Microsoft.

 

A Samsung lançou três placas ARTIK para que pessoas pudessem desenvolver suas aplicações em cima dessas placas. Esse passo foi inédito na história dessa companhia, que não costumava disponibilizar placas acessíveis a desenvolvedores do mundo todo.

 

Para muitos a entrada dessas duas companhias, Microsoft e Samsung, foi uma surpresa, mas só reforça o que essa revolução Maker está trazendo para a indústria: oportunidade de negócios novos e indicação que o número de equipamentos elétricos conectados só vai aumentar.

 

 

Onde usamos essas placas no mercado?

 

Falamos de Arduino, Raspberry Pi, plataformas da Samsung e Microsoft, etc. Como o mercado de consumo tem visto essa propagação assombrosa de placas? Bem, o público Maker em geral tem se aproveitado dessa facilidade, como já dito anteriormente. E como as empresas e institutos de educação têm se mostrado perante essa onda? Temos percebido que o baixo custo e facilidade em se criar um protótipo para uma ideia têm se mostrado argumentos muito fortes na adoção dessas soluções em produtos. Veja o artigo de editorial Uso de kits comerciais para desenvolvimento de produtos para mais discussões interessantes.

 

Ao mesmo tempo, comprar essas placas é muito fácil. Além de lojas especializadas na Internet, placas Arduinos e todos os apetrechos Makers já podem ser encontrados em grandes redes de consumo e magazines online em todos os países.

 

 

Movimento Maker no Brasil

 

No Brasil, um dos pioneiros sem dúvida foi o site LabdeGaragem, que chamava os projetistas e todo pessoal que gosta de eletrônica para formar uma comunidade onde podia ser trocado conhecimento em forma de vídeo e fórum. Existia um espaço para que fosse mostrado o seu projeto eletrônico e, quem quisesse, poderia desenvolver um hardware e vender pela loja do Laboratório de Garagem. Esse site foi um dos pioneiros no Brasil e, em conjunto com outros blogs e sites, formaram o início desse movimento no país, de troca de informação em projetos de sistemas eletrônicos.

 

Para aqueles que não possuem ferramentas para criar um projeto em casa e gostariam de se arriscar na área de eletrônica, podem usar os espaços chamados de hackerspaces. Hoje em dia está cada vez mais comum esse tipo de comunidade e estão presentes em diversos locais no Brasil. Um dos hackerspaces de destaque é o  Garoa Hacker Club, localizado em São Paulo. Trata-se de um ambiente colaborativo e multidisciplinar, onde pessoas podem se encontrar e trocar experiências na área e expor suas dificuldades e desafios encontrados. Acesso livre e garantia de liberdade para os membros do local proporem projetos são regras fundamentais. Quer trabalhar com uma impressora 3D, montar um protótipo num protoboard, discutir sua ideia com profissionais, hobbyistas, entusiastas...Makers? O Garoa é o lugar certo em São Paulo! Em Fortaleza no Ceará, está situado o ForHackerSpace. O espaço pertence a Casa da Cultura Digital de Fortaleza, que constitui um núcleo de atividades de difusão, formação e criação em cultura digital. Através de parcerias com Universidades, grupos de estudos, oficinas, palestras e cursos abertos para a comunidade, o pessoal do ForHackerSpace contribui e todos aprendem de forma mútua. Outra iniciativa emergente é o PyLadies Fortaleza, que visa difundir o Movimento Maker, predominantemente, para o público feminino. 

 

Os Fab labs são espaços makers com diversas ferramentas que permitem a fabricação de quase tudo. São uma rede de compartilhamento de conhecimento que se estende por mais de 60 países e quase 450 laboratórios. Máquinas de corte a laser, CNCs, impressoras 3D, placas eletrônicas fáceis de usar, equipamentos eletrônicos básicos e até mesmo algumas ferramentas avançadas para instrumentação como osciloscópios e estações de solda podem ser encontrados nos Fab Labs. Esses espaços são focados no desenvolvimento de prototipos e trabalham muito com o conceito mecânico e nao trabalham com producao, mas desenvolvimento das primeiras versões de produtos. Elas são um local onde idéias se tornam realidade. Não trata-se de uma franquia, mas de um movimento que cresce espontaneamente e que quer democratizar o acesso às novas tecnologias de fabricação, incentivar o conhecimento aberto, o empreendedorismo e o espírito "mão na massa. Um desses locais é o Brasilia Fab Lab que trabalha colocando em pratica essa filosofia dos Fab labs, que é compartilhando conhecimento e ferramentas que se estimula inovação em nossa sociedade. Lá se pensa, cria e faz. Diversos cursos e workshop de eletrônica, principalmente utilizando placas de fácil acesso e simples de programar como Arduino, sao oferecidos à comunidade. Também sao oferecidos cursos de fabricacao, impressão 3D, marcenaria, entre outros temas relacionados a esse universo de criação e inovação.

 

Hoje em dia há alguns sites que se destacam no movimento Maker no Brasil. O site Fazedores nasceu exatamente com essa proposta, fomentar o movimento em nosso país e inspirar os futuros fazedores brasileiros e exerce papel de liderança neste assunto no nosso país. A ideia do site é exatamente criar um ponto de encontro para todos os tipos de fazedores, incluindo os que criam projetos de eletrônica e robótica, entre outros, compartilharem ideias, projetos e conhecimentos sobre os mais diversos ramos dessa cultura Maker. Querem atrair todo tipo de público, do hobbyista até o fazedor profissional, e até mesmo o curioso. O fórum de seu site é bem movimentado e lá é possível encontrar diversas informações interessantes para quem gosta de aprender ou ensinar a fazer. O Fazedores fez uma parceria com o Catraca Livre e leva agora seu conteúdo para além de seu site e chega a mais pessoas em todo Brasil mostrando que essa revolução Maker veio pra ficar e que esta mudança de mundo provocada por ela pode ter um impacto positivo em nossa sociedade.

 

Manoel Lemos, o responsável pelo site Fazedores, apresentou uma palestra no SXSW 2015, em Austin nos Estados Unidos chamada O Estado do Movimento Maker no Brasil, onde expôs detalhes da realidade do movimento Maker no Brasil, frutos de um estudo realizado tomando por base o que está acontecendo nessa área no país. Vale a pena dar uma olhada em sua apresentação no link acima.

 

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Como programar um ATMEGA com um Arduino? Essa experiência foi desenvolvida no site br-arduino. Disponível em http://br-arduino.org/2015/06/atmega-standalone-programar-com-arduino.html

 

O site br-arduino divulga semanalmente novos projetos com Arduino e ensina passo a passo a programar essa plataforma Maker. Os tutorias são meticulosamente preparados e cada detalhe é explicado para aqueles que não possuem todo domínio do ambiente Arduino. Mas não só software é compartilhado, detalhes de esquemático e de como montar os circuitos eletrônicos fazem parte dos tutoriais preparados por Augusto Campos, o responsável pelo site e grande admirador desses dispositivos eletrônicos fáceis de usar. Experiências com diferentes hardwares e tipo de comunicação já foram publicados e apesar de ser muito novo, o site br-arduino cresce em conteúdo de forma muito regular e contínua.

 

Muitas lojas no Brasil também não somente vendem os produtos Makers, mas têm um blog ou sessão especial que ensinam como programar e montar hardwares para Arduinos e placas Makers. O site do FILIPEFLOP, nosso parceiro, se destaca como um dos sites que mais têm conteúdo de qualidade na área nessa categoria.

 

O site DIY brasil também pegou uma carona na onda Maker e tem vários projetos de Do it Yourself (faça você mesmo) disponíveis no site. É um ponto de encontro para pessoas que querem trocar experiências sobre projetos eletrônicos com detalhes de hardware e software. Já é um site bem tradicional conhecido pelos que apreciam eletrônica.

 

 

E o Embarcados?

 

Por fim não podemos esquecer de mencionar o Embarcados! O nosso site possui a missão de compartilhar conhecimento de qualidade sobre o desenvolvimento de sistemas embarcados pois acredita que dessa maneira pode contribuir para o avanço tecnológico do país. São publicados artigos voltados tanto aos profissionais quanto aos Makers, entusiastas e hobbyistas que se interessam pelo mundo da eletrônica. Queremos mostrar aos iniciantes que existem muitas possibilidades e conhecimento além do Arduino e que ele pode ser adquirido por qualquer pessoa. E para quem é fã e apaixonado por essas placas fáceis de programar, disponibilizamos explicações e informações técnicas detalhadas de hardware e software e informamos sobre os novos lançamentos de novos chips e placas e também a disponibilidade de novos softwares, como novos sistemas operacionais, por exemplo.

 

Deixamos de falar de diversos sites e locais. Muitos desses primeiros, no entanto, podem ser encontrados na sessão de parceiros do site Embarcados. Fab Labs, Hacker Spaces, reuniões de alunos e professores, formando grupos em universidades, escolas, cursos técnicos, incubadoras ou entre amigos, o movimento pulsa quando pessoas querem aprender e ensinar. E a cada dia que passa mais espaços assim aparecem.

 

 

E o que o pessoal que realmente agita esse movimento acha sobre a onda Maker no Brasil?

 

Fizemos as seguinte pergunta a algumas personalidades que trabalham na área Maker no Brasil:

 

Como anda o movimento Maker no Brasil e qual seu impacto para a área de sistemas eletrônicos?

 

Resposta de Manoel Lemos, fundador e Maker chefe do site Fazedores:

manoelO Movimento Maker no Brasil ainda está em uma fase inicial, mas acelerando com força total. Vemos todos os dias novas iniciativas e projetos ligados ao universo Maker e as pessoas estão, aos poucos, tendo mais contato com a cultura Maker e entendendo o seu potencial. O Brasil tem de tudo para ser uma grande nação Maker, somos criativos, amamos tecnologia e temos o DNA da Gambiarra em nosso sangue. A Gambiarra é uma espécie de movimento Maker com base na necessidade, na necessidade de se resolver problemas com os recursos que estão ao seu alcance. Ou seja, todo Brasileiro é um Maker em potencial. Boa parte dos projetos que vemos surgindo são da área de eletrônica e acredito que, com isto, cada vez mais pessoas estão se interessando pelo tema ou começando a pensar em como seus conhecimentos na área podem render novos frutos. Estes frutos podem ser novos projetos para a comunidade, startups e muito mais. Não tenho dúvidas que veremos uma nova geração de pessoas envolvidas com os sistemas eletrônicos graças ao movimento Maker.

 

Resposta de Gabriela Agustini, fundadora e diretora do Olabi Makerspace:

Gabriela AgustiniO Brasil tem uma cultura maker muito grande, ainda que boa parte dos seus adeptos não se reconheçam exatamente por esse termo. Apropriações de tecnologias, gambiarras, consertos, invenções caseiras com os equipamentos e materiais que se tem a mão incentivam a criatividade do nosso povo nas mais diversas regiões do país há bastante tempo. Com a chegada dos Arduinos e placas eletrônicas isso só cresce e dá ainda mais insumo para as habilidades das pessoas por aqui. Os projetos com base em eletrônica e robótica tem crescido muito e, do outro lado, os projetos de marcenaria também. E já tem surgido os projetos que juntam uma coisa com a outra (o que é recente e incipiente, mas está crescendo rápido). Se conseguirmos acesso mais fácil a equipamentos, componentes, ferramentas podemos sonhar que isso, de fato, empodere as pessoas por aqui e gere desenvolvimento social, emprego, renda, além de uma série de produtos divertidos (e úteis!). Já que gostamos tanto no Brasil de tecnologia, passou da hora de deixarmos de ser apenas consumidores e virarmos produtores dos nossos produtos. Não nos faltam habilidades para isso 🙂

 

Resposta de Augusto Campos, fundador e idealizador do site br-arduino:

augustoEu cheguei à cena Maker vindo de anos de experiência na cena open source, e vejo muitos paralelos entre os dois movimentos. O mais legal é que entre os Makers (e muitos deles são nomes conhecidos no mundo open source também) ainda existe um clima parecido ao dos entusiastas de Linux na década de 90, centrado em desenvolver soluções e unir esforços em prol de projetos interessantes e até mesmo divertidos, com espaço tanto para quem já está no nível avançado quanto para receber as contribuições e estimular o aprendizado de quem está chegando – e este era o meu caso, 6 meses atrás. Torço para que essa atitude inclusiva, sem elitismo, dure muito: é isso que mantém jovem uma comunidade. E, por essa métrica, o movimento Maker no Brasil vai muito bem!

 

Resposta de Claudio Olmedo, militante do Hardware Livre no Brasil:

Claudio-OlmedoEste movimento aproxima os brasileiros à eletrônica, apesar da dificuldade para a importação, O Brasil cresce rapidamente em adeptos, graça às redes sociais e espaços que se multiplicam cada ano. Sendo levados a novos lugares por divulgadores voluntários.

O maior impacto na área de sistemas eletrônicos é a democratização do processo de prototipagem rápida. Os milhares de novos desenvolvedores em Hardware do Movimento Maker estão criando em suas casas como hobby, amanhã tendem a desenvolver novos produtos. É um cenário bem positivo, onde veremos cada vez mais projetos com Hardware Livre, como notebooks, celulares, PLCs, Kits de desenvolvimentos educacionais, o brasileiro vai criar utilizando estes projetos como base para suas próprias invenções e produtos. Isto irá transformar a economia brasileira, lhe dando independência tecnológica.

 

Resposta de Marcelo Melo, Coordenador do ForHackerSpace de Fortaleza/CE:

11426476_1111280835552372_2112291562_nCom o advento do Arduino e sua popularização, a arte de fazer "coisas tecnológicas" se fez mais presente e de forma mais fácil na vida do usuário comum. Lembro, quando era mais jovem, que tínhamos, principalmente, o PIC como cérebro para os projetos, tínhamos que ter um conhecimento mais elevado, além de fazer a plaquinha "na mão", não havia Shields nem IDEs open-source - mas foi um bom aprendizado.

O Movimento Maker, que vem crescendo a cada ano no Brasil, contribuiu cada vez mais para que pessoas com um conhecimento menos aprofundado, começassem a criar tecnologia, que era quase impossível há uns 10 anos. Através da Internet, ficou mais fácil conhecer e comprar placas da China, onde os preços são infinitamente mais atrativos que os vendidos nacionalmente.

A tendência é o surgimento de mais placas com preços menores e uma maior difusão do conhecimento Maker. Será bastante comum pessoas criarem seus próprios hardwares para resolverem problemas domésticos, crianças programando seus próprios brinquedos (por quê não?). No futuro será tão fácil criar tecnologia quanto fazer bolo usando a receita.

 

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Imagem do Olabi Makerspace, disponivel em https://www.flickr.com/photos/[email protected]/15008310748/in/album-72157647417648501/

 

 

Conclusão: A revolução está só no começo

 

Acreditamos que boa parcela dos Makers são inventores e professores “Pardal” com potencial em transformar suas ideias e soluções em produtos reais e, assim, contribuir para a geração de novos negócios e empresas. Com o desenvolvimento das placas e soluções eletrônicas para Makers, acreditamos que no futuro empresas que trabalham com hardware possam focar mais em seu modelo de negócios e não se preocupar tanto com o desenvolvimento de hardware e driver como hoje em dia. O código disponível compatível com as  placas DIY cresce a cada dia que passa, bem como o volume de posts na internet cheios de ilustrações, imagens auto explicativas e pseudo diagrama elétricos. Quem ganha com isso é o nosso mundo que fica mais hi-tech e acessível a todos. Muita coisa está para acontecer nesse mundo novo.

Por fim, achamos interessante um video de Heloisa Neves em uma apresentação para o TEDx entitulada "Você ainda vai ser um Maker".

 

Deixe seus comentários abaixo. Queremos ouvir todos sobre a onda Maker.

 

 

Considerações

 

Gostaríamos de agradecer a todos os articulistas que participaram da escrita desta matéria: Diego SueiroFábio Souza, Henrique Rossi,  e Thiago Lima, alem das pessoas que contribuíram com informações preciosas, entre eles Manoel Lemos, Marcelo Melo, Claudio Olmedo, Augusto Campos, Gabriela Agustini e George Brindeiro.

 

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Não pude deixar de notar a passagem, "...fabricação pessoal de peças, feiras Makers, tudo isso faz parte da cultura Maker. Podemos também mencionar outras áreas, como trabalhos artísticos e artesanais, que fazem uso de tecnologia." O trecho deixa a entender nesse caso que trabalhos artesanais e artísticos podem fazem parte da cultura Maker se fizerem uso de tecnologia. Então pergunto. Se eu fizer uma luva de couro para falcoaria, ensinado todo o passo-a-passo e disponibilizando o desenho técnico do modelo na internet, não é um projeto Maker?

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