Editorial: Maker e o profissional

Maker e o profissional
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Introdução

 

Nos formamos na área de eletrônica e informática e nos tornamos profissionais. Mas de alguma forma podemos nos tornar makers, mesmo não possuindo formação técnica. Ou ainda nos interessarmos pela eletrônica depois de nos tornarmos makers, e, por meio de uma formação na área, sermos profissionais. Mesmo como profissionais, normalmente nos especializamos em uma área e podemos “brincar” com áreas correlacionadas à nossa, como um hobby ou mesmo como curiosidade.

 

Como é essa fronteira? Qual a diferença entre maker e profissional? Posso ser os dois? O que podemos dizer é: os dois são independentes e sim, você pode. Todos podemos ser makers, quando tentamos criar soluções para problemas frequentes ou arrumamos algo em nossa casa, por exemplo, mas um profissional precisa focar num objetivo que muitas vezes não é dele, é o de uma empresa. E um produto comercial, que vai gerar lucro para essa empresa, tem que seguir normas e certificações. É algo mais formal.

 

Mas a fronteira entre o Maker e profissionalismo em áreas como artesanato e arte não existe. A inclusão digital trazida pelos “makers digitais” revoluciona essas áreas.

 

Neste editorial abordaremos as diferenças e semelhanças entre o maker e o profissional na área de eletrônica embarcada.

 

 

O movimento maker, como surgiu, qual a ideia?

 

A movimento Maker na forma que conhecemos é contemporâneo e tem origem na cultura DIY (Do It Yourself), com intersecção na cultura hacker, com o objetivo de criar novos dispositivos ou alterar os já existentes. As atividades makers estão ligadas às áreas de engenharia, como eletrônica, robótica, impressão 3D e o uso de máquinas CNC, porém também estão ligadas às atividades mais tradicionais, como trabalho com metal e madeira, artes e trabalhos tradicionais relacionados.

 

E esse último grupo de atividades geravam muita demanda por parte da sociedade muito antes das revoluções industrial e digital. Problemas existiam, hobbies inspiravam as pessoas, e conhecimento catalizava. Pessoas simplesmente faziam coisas que eram importantes para o seu meio e mostravam o resultado para o seu próximo. Isso é do ser humano.

 

O vídeo a seguir, mesmo que possua uma tendência de proteger e enaltecer a cultura Americana, é muito interessante do ponto de vista de atitude e consciência maker, datado de 1961 e criado pela montadora Chevrolet.

 

 

O conceito Maker já existia desde então e que possuía muitos adeptos. E não sumiu. Com a era digital batendo à porta, muita informação deixou de ser obtida somente por meio de rádio, televisão, bibliotecas e com o vizinho ao lado. Surgiu o computador pessoal e a internet.

 

Com tamanha massa de informação originada da internet, sendo possível de ser compartilhada instantaneamente, um projeto ou trabalho pessoal não era passado somente para um vizinho, mas também para grupos por e-mail e redes sociais. E a proliferação era sustentada pela motivação de cada um, sentindo-se contente em ajudar a espalhar o conhecimento.

 

No mundo da eletrônica, recentemente, houve um catalizador fundamental. A plataforma Arduino foi criada e tornou fácil a aquisição de um hardware básico, padronizado e de fácil manipulação por meio de uma ferramenta de software simples. É usando uma linguagem de codificação simples e de pouca dificuldade, suportada por um hardware padronizado e barato, que fez com que entusiastas de áreas não técnicas fossem atraídos para dar vida a ideias antes difíceis de serem alcançadas. O Arduino, de certa forma, democratizou a eletrônica, atraindo profissionais de todas as áreas pra experimentar trabalhar com eletrônica digital.

 

O espírito de compartilhamento é impulsionado pela cultura open-source, seja voltada para hardware quanto para software. Tal cultura apoia a abordagem de cópia e melhoria de projetos já prontos, os reproduzindo de forma didática. Esse tipo de atividade tem sido facilitada com a impressão 3D e com projetos open-source e open-hardware. Além disso, incentiva os adeptos do movimento a criarem novos tutoriais e a publicarem projetos em sites e blogs em geral para as demais pessoas seguirem divulgando experiências. Dessa forma o conhecimento é compartilhado e discutido em grupo, atingindo a prática a partir de modelos de referência.

 

 

O que é um maker?

 

O que me torna um maker? É trabalhar com Arduino? Atualmente ser rotulado como maker pode ser uma consequência de se apresentar um projeto com Arduino, por exemplo, ou Raspberry Pi. Plataformas essas desenvolvidas para se facilitar o ensino e o uso de novas tecnologias. Mas não é somente isso.

 

Ser maker é resolver um problema com uma solução própria, seja ela qual for. É o DIY, o faça você mesmo!

 

Vai usar Arduino? Tem grandes chances, pois o custo é muito agressivo para o público, mas por que não com um circuito microcontrolado simples, ou um CoM ou SBC de baixo custo? Ou com lógica digital simples? Isso é o conhecimento, experiência e material disponível do maker que vai dizer.

 

 

O que é um profissional?

 

Ser maker não quer dizer que não possa ser profissional. Ser maker é relacionado à atitude e vontade, querer resolver um problema para você ou seu próximo. Ser profissional é se comprometer com uma solução que vai ser usada pela sociedade e estar consciente das suas atitudes.

 

Desenvolver um produto geralmente demanda certificações, e as soluções adotadas devem ser aquelas decididas por uma equipe experiente, com a finalidade de trazer lucro para um grupo de interessados. Um produto é desenvolvido considerando um problema em mente e uma demanda de mercado, gerando pesquisas e estudos para se encontrar a melhor solução dado um cenário de custo, escopo e tempo disponíveis. Uma plataforma é construída do zero ou baseada em alguma já desenvolvida e que seja confiável e estável.

 

Ao utilizar uma SBC maker para a criação de um projeto, temos que ter o devido cuidado pois ela se adequa a um ambiente de estudo, não a um ambiente hostil, por exemplo. Nesse caso, precisa-se adequar um produto às características já oferecidas pela solução. Esse assunto foi abordado no editorial sobre o uso de kits comerciais para desenvolvimento de produtos.

 

Hoje um maker, no futuro um profissional. Não existe essa escala. Cada um tem um foco. Um maker interessado na área de eletrônica muito provavelmente vai se dedicar no segmento e estar consciente das soluções que existem no momento para caso já esteja atuando no mercado profissional. E dessa forma possa colaborar com ideias e melhores soluções para um produto.

 

Um profissional pode ser um maker em casa. Um programador pode se aventurar em criar protótipos mecânicos em seu domicílio por meio de uma impressora 3D e uma máquina CNC, e adicionar controle por meio de um placa criada por ele mesmo. O que vai ter dentro dela? Não importa, o que importa é a atitude, estimulada pela necessidade, criatividade ou curiosidade.

 

No entanto temos encontrado no mercado profissionais que se interessaram muito por plataformas que facilitam muito o público maker, como Arduino, por exemplo, e o têm considerado a única e melhor solução. Um outro detalhe que se destaca é que o conhecimento base necessário para se desenvolver um produto robusto é ignorado em detrimento da facilidade oferecida pelas soluções makers.

 

As plataformas makers voltadas para eletrônica permitem o fácil acesso à tecnologia, porém em ambientes de ensino de eletrônica, onde o foco é a formação do profissional que atuará no desenvolvimento de produtos ou soluções, é necessário ter cautela. Em muitos casos o estudante tem a falsa impressão de ter aprendido, porém ele usou algo já pronto e não observou os detalhes e conceitos envolvidos. Tais conceitos podem ser fundamentais para a solução de um problema dentro de uma empresa.

 

Por exemplo, muitas aplicações makers usam módulos que se comunicam através de um protocolo serial, sendo que geralmente as camadas mais baixas de comunicação já são oferecidas prontas e encapsuladas, não sendo necessária a preocupação por parte do desenvolvedor para isso. Porém em determinada situação pode ser necessário modificar as camadas mais baixas, seja para atender uma determinada necessidade de projeto ou para corrigir bugs. Nesse ponto os conhecimentos adquiridos durante a formação podem ser necessários para encontrar a melhor solução ou até mesmo desenvolver uma nova.

 

O que deve ser considerado é o todo, e estudar as possibilidades existentes. O mercado de trabalho precisa de soluções inovadoras e de baixo custo. Muitas dessas plataformas makers têm auxiliado em prototipagem e prova de conceito para produtos, mas podem pecar em requisitos técnicos.

 

Os projetos que nasceram maker, e viraram profissionais, geralmente entram no mercado através de campanhas de financiamento coletivo, em plataformas como kickstarter e outros sites de financiamento. Além disso, um ponto comum dos projetos de sucesso é uma equipe alinhada que trabalha muito bem o produto para a solução proposta.

 

 

Postura do Embarcados

 

Com a sua reformulação, o Embarcados tinha um objetivo muito claro: Ser fonte de referência de informação sobre desenvolvimento de sistemas embarcados para os profissionais brasileiros. Porém, com o tempo, percebemos que o movimento maker vinha crescendo e a cada pesquisa e enquete que fazíamos identificávamos um maior interesse por assuntos mais básicos, introdutórios e no estilo “Do It Yourself”.

 

Diante desse cenário resolvemos publicar mais conteúdos para o público maker, porém com a intenção de mostrar que existe muito mais conhecimento além do Arduino e Raspberry Pi.

 

Dessa forma, buscamos disponibilizar conteúdo de qualidade em todos os níveis de conhecimento na área de eletrônica embarcada. O maker pode dar os primeiros passos na eletrônica embarcada e ir evoluindo nos seus projetos pessoais. O estudante pode encontrar material complementar para sua formação. Já o profissional pode considerar o site como uma fonte de informações para se manter atualizado e, até mesmo, como um local com soluções de problemas vivenciados no dia a dia das empresas.

 

Hoje publicamos conteúdo que atende desde o público maker ao profissional, dado que o mundo de sistemas eletrônicos embarcados os compreende de forma coexistente e complementar. Com o avanço da tecnologia e a redução dos custos de diversas plataformas microcontroladas/microprocessadas com conectividade, criam-se bases para que novas soluções profissionais surjam.

 

Precisamos saber lidar com os dois mundos, e por esse motivo o Embarcados está aberto a qualquer assunto que agregue para a comunidade brasileira e a todos que gostam de eletrônica e tecnologia. Nossos articulistas são especialistas em diversas áreas da eletrônica, o que nos proporciona conteúdo de qualidade.

 

Caso o leitor se interesse em compartilhar conhecimento com a comunidade e queira enviar artigos avulsos ou fazer parte do time, acesse aqui.

 

Gostaríamos de ouvir a opinião dos leitores sobre esse assunto. Deixe seu comentário abaixo. 

 

 

Conclusões

 

A definição de maker é interessante de ser estabelecida pois não está relacionada somente com tecnologia, e sim com atitude e um problema em comum. A atitude de “faça você mesmo” é o mais importante. Com o avanço da tecnologia, lógico que muitos projetos pessoais ganham destaque na internet, até porque as redes sociais são impulsionadores fundamentais nesse processo.

 

Se não temos um propósito, uma comunidade para representar e com a qual compartilhar experiências, fazemos por fazer. Aí somos simplesmente aventureiros.

 

Mas o mais importante é continuar a aprender, discutir e desenvolver em eletrônica, de todas as formas possíveis. E apoiamos isso! Queremos que o Brasil todo se transforme em um grande “playground eletrônico”.

 

 

Agradecimentos

 

Escreveram e revisaram este texto: Diego SueiroFábio SouzaHenrique Rossi, Rodrigo Almeida e Thiago Lima.