Editorial: Análise do Mercado de Trabalho de Sistemas Embarcados no Brasil 2015

Pesquisa sobre o Mercado de Trabalho Brasileiro de Desenvolvimento de Sistemas Embarcados 2015

Pesquisa sobre o Mercado de Trabalho Brasileiro de Desenvolvimento de Sistemas Embarcados 2015

É importante para os profissionais da área de sistemas embarcados terem em mente como o mercado está se comportando. Essa consciência de como o mercado está navegando pode ser utilizada como um feedback para que cada profissional reflita sobre si mesmo e considere suas habilidades e experiências e possa se destacar cada vez mais na empresa, na universidade ou na comunidade em que vive.

Dessa forma, entre os dias 21 de Setembro e 16 de Outubro de 2015 o site Embarcados realizou uma pesquisa aberta, destinada ao mercado nacional e respondida por 835 profissionais de amplo conhecimento no segmento de sistemas embarcados. A pesquisa se intitula – Pesquisa sobre o Mercado de Trabalho Brasileiro de Desenvolvimento de Sistemas Embarcados 2015 e os resultados foram surpreendentes (veja o resultado aqui). Tendo esse resultado em mãos, a equipe do Embarcados decidiu realizar uma análise do mercado de trabalho de sistemas embarcados detalhada.

Seguindo a tendência do mercado, onde o bom profissional não vive sozinho em uma ilha, é de extrema importância contribuir com a comunidade, como agente catalisador de novas ideias ou apoiando iniciativas coletivas (muitas delas open-source), ou até mesmo oferecendo apenas alguma ajuda pontual no desenvolvimento de novas ideias. É admissível ainda que o profissional não concorde com o movimento do mercado, apostando em uma tecnologia que esteja sendo pouco explorada ou mesmo que sirva como substituta para outra. Com isso o bom profissional pode liderar um momento de rompimento, oferecendo alternativas, argumentos, aplicabilidade… Mão na massa! Isso é buscar mudanças – e é do que o Brasil precisa.

Vamos entender a pesquisa então?

Público

A pesquisa utilizou um questionário online através da ferramenta Survey Manager (SM), com 30 perguntas cujo intuito é de identificar e traçar o perfil do profissional Brasileiro no desenvolvimento de sistemas eletrônicos. A pesquisa foi divulgada pelo Embarcados e realizada entre o período de 21/09/2015 a 16/10/2015. A organização da pesquisa, utilizando a base de dados dos usuários cadastrados no site, enviou um email com o link para o questionário. A pesquisa contou com a resposta de 835 profissionais, sendo 97% masculino e 3% feminino.

A faixa etária do público masculino ficou distribuída da seguinte forma: 38% na faixa de 17 a 29 anos, 49% na faixa de 30 a 39 anos e 12% acima de 40 anos.

Com relação ao público feminino, temos a seguinte distribuição: 59% entre 17 e 29 anos, 28% entre 30 e 39 anos e por fim 13% acima dos quarenta.

A primeira consideração a ser feita é que a maioria dos profissionais que responderam à pesquisa é do sexo masculino (49%), nascidos entre a década de 70 e 80. Este é um número interessante de ser observado quando comparado ao profissional feminino, cuja maioria (59%) está entre a faixa etária de 17 a 29 anos, nascidos após entre a década de 80 e 90.

Esses valores demonstram uma tendência de aumento do profissional feminino para as próximas décadas na área de sistemas embarcados. Podem ser considerados como fatores para esse aumento o boom da internet pós-década de 90, a diversificação de IDEs, a popularização das linguagens de programação para embarcados, o boom do desenvolvimento de hardware e, por fim, o aumento de cursos de especialização em sistemas embarcados. Todos esses fatores (e certamente outros não citados) podem ter colaborado para essa distribuição do profissional feminino entre 17 e 29 anos na pesquisa.

Com relação aos Estados em que residem os profissionais que responderam a pesquisa é possível observar que as Regiões Sul e Sudeste concentram a grande maioria dos profissionais da presente pesquisa. Os números foram distribuídos da seguinte forma: 61% são residentes na Região Sudeste, sendo 47% em São Paulo, 11% em Minas Gerais e somente 4% no Rio de Janeiro; a Região Sul corresponde a 28% dos profissionais da pesquisa, sendo 12% residentes no Rio Grande do Sul, 9% no Paraná e  8% em Santa Catarina; A Região Norte, Nordeste e Centro-Oeste correspondem a 11% dos profissionais que responderam a pesquisa, sendo 2% residentes no Ceará, 1% em Pernambuco, 1% na Bahia, 1% no Rio Grande do Norte, 1% no Distrito Federal, 1% em Goiás e por fim, e não menos importante, 1% no Amazonas.

Carreira

Como pode ser observado nas tabelas acima, a grande maioria dos profissionais em sistemas embarcados são engenheiros (68%) e atuam na industria como na engenharia (62%). O que se sabe pelo contato com o profissional do mercado de sistemas embarcados que pela variedade de projetos o profissional necessita ter conhecimento amplo tanto de software quanto de hardware. É esse background acaba sendo obtido por meio de cursos técnicos de Eletrônica/Informática e cursos de graduação em Engenharia Elétrica/Eletrônica/Computação.

Outro aspecto interessante são os cursos de formação desses profissionais. É possivel observar que 32% do profissionais de sistemas embarcados possuem a graduação completa, contudo é importante observar que a pós-graduação corresponde a 60% dos profissionais que responderam a pesquisa. Isso leva a ilustra uma característica importante – o profissional de sistemas embarcados é continuar se especializando após a graduação.

Muito se deve, talvez porque um curso de graduação não seja suficiente para oferecer um  conhecimento amplo e necessários para se ter sucesso e êxito no mercado de trabalho. Em razão disso muitos cursos de pós-graduação têm sido criados ao longo do último ano.

Com relação à experiência do profissional, quase metade, 44%, possui até 5 anos de experiência na área, o que mostra que esse segmento tem conquistado profissionais. Temos um grupo de profissionais muito experientes, com pelo menos 15 anos de experiência, formado por 14% do público. E esperamos que esse grupo cresça! Ter um grupo grande de experientes profissionais mostra fidelidade para com a área, empolgação com as novas tecnologias que vêm surgindo a todo momento, paixão pelo ofício e segurança para as empresas que procuram funcionários!

A grande maioria dos profissionais, 66%, está registrada na empresa onde trabalha com vínculo CLT, o que mostra que as empresas que produzem produtos que entram na categoria de sistemas embarcados preferem ter um funcionário próprio alocado em seus projetos do que ir ao mercado em busca de prestação de serviço, que representa 24% dos entrevistados.

O que pode acontecer no mercado é que um funcionário esteja registrado com um cargo, mas esteja exercendo funções de outro, superior hierarquicamente. Isso a pesquisa identificou em 21% do público. Isso acontece geralmente no começo da carreira do profissional que, para entrar no mercado, acaba precisando aceitar essas condições.

A carreira profissional é uma reclamação dos profissionais, dado que não fica claro para 63% dos pesquisados quais são os requisitos para os cargos superiores, o que pode acabar por atrapalhar e desestimular a sua trajetória pela empresa.

A faixa salarial dos profissionais de sistemas embarcados com até 3 anos na função está em torno de R$1.000,00 – R$3.000,00. Já a maior parte dos profissionais (68%)  está situada na faixa de R$3.000,00 e R$9.000,00. É difícil concluir, mas aparentemente esse valor corresponde a salários de profissionais com experiência de 4 a 9 anos, incluindo também alguns profissionais mais experientes, com mais de 10 anos no mercado. E a evolução desse valor está ligada diretamente ao tempo no cargo, o que é apontado por 75% dos profissionais, sendo que o restante deles indica que as empresas onde trabalham pré-programam aumentos salariais ao longo do seu plano de carreira.

Além disso, os benefícios mais oferecidos pelas empresas atualmente são plano de saúde, vale alimentação, vale refeição, PLR (participação nos lucros e resultados), vale transporte e plano odontológico.

Dado todo esse cenário do mercado, a grande maioria, 73%, dos profissionais considera-se satisfeita com o emprego atual.

Ficamos muito felizes em saber que dentro da nossa área existe um público acadêmico, recebendo bolsas de instituições. Isso mostra o engajamento das instituições de ensino com o mercado de sistemas embarcados.

Atribuições do profissional

Podemos dizer que a maior parte das oportunidades para se atuar na área de sistemas embarcados no Brasil está em empresas de até 500 funcionários. 63% dos profissionais atuam em empresas desse porte. É por esse motivo, talvez, que a quantidade de atividades exercidas pelos profissionais é alta, como mostrou a pesquisa.

A seguir listaremos as atribuições que um desenvolvedor ou engenheiro de sistemas embarcados pode assumir: 

Aplicações

Controles industriais está no topo das aplicações dos projetos desenvolvidos no Brasil, sendo que 30% desenvolvem projetos para esse segmento. Logo em seguida, com 27%, vem projetos para comunicação e redes, isso mostra que cada vez mais estão surgindo projetos que necessitam de algum tipo de comunicação ou precisam estar conectados em uma rede. É interessante notar a presença de projetos para a internet das coisas, que já representam 23% das aplicações, e esse número provavelmente aumentará em uma pesquisa futura. A área automotiva representa 21% das aplicações para projetos embarcados. Logo em seguida aparece projetos para automação residencial, com 20%, e instrumentação eletrônica e automação comercial, ambas com 19%. Segurança e automação predial também estão presentes com 16% de aplicações, já aplicações médicas aparece com 13%. Os números mostram a grande variedade de aplicações dos projetos embarcados no Brasil, além de mostrar a presença de tecnologias novas como IoT e a representatividade do setor industrial no país.

Ferramentas utilizadas

Quando é iniciado um projeto para desenvolver um sistema embarcado, são levadas em considerações as ferramentas necessárias para tal. Um dos pontos é a linguagem de programação a ser utilizada. Isso depende muito do conjunto adotado, composto por IDE, microcontrolador, experiência da equipe, compiladores existentes, etc. De pronto, temos uma resposta de certa forma já esperada da pesquisa, ou seja, mais de 90% dos profissionais possuem experiência com a linguagem C.

Linguagens como C++ e Assembly já eram grandes companheiras da linguagem C, e já vinham sendo adotadas em projetos, por isso que mais de 50% dos desenvolvedores já usaram tais linguagens profissionalmente. Mas o interessante agora é que o mercado tem se expandido de certa forma que outras linguagens têm assumindo papel muito importante durante o desenvolvimento de um projeto. Exemplo disso são as linguagens MATLAB, Java, HTML, C#, Python e VHDL, que já foram utilizadas por pelo menos 30% dos profissionais.

De acordo com a pesquisa, 63% dos usuários utilizam Microchip enquanto 61% utilizam Atmel, lembrando que nesta pesquisa cada respondente informou utilizar mais de uma família, em média 3, por isso desse índice. Assim podemos determinar que a IDE mais utilizada é o MPLAB X. Outros fabricantes como a Atmel, ST, Texas, NXP e outras, também possuem suas respectivas IDEs, porém ferramentas como Keil MDK, IAR, Coocox e SW4ST possuem bibliotecas para esses microcontroladores, assim tornando-se mais conhecidas.

Uma vez que um software é utilizado para desenvolvimento de um projeto, é preciso versioná-lo de alguma forma. Quase metade dos profissionais da área já usaram SVN e Git, 46% e 43%, respectivamente. O impressionante é ainda encontrarmos uma fatia grande do mercado, 31%, não utilizando ferramenta de controle de versão.

Quanto ao desenvolvimento de hardware, podemos considerar que existe uma preferência por Proteus/Ares, Eagle e Altium. De 35% a 40% dos profissionais possuem experiência com essas ferramentas. Outros softwares, com menor intensidade, tem atraído o profissional. 22% dos profissionais já utilizou o Orcad, 18% já possuem algum contato com PCAD e 12% possuem experiência com o Kicad.

Quantos bits?

Verificamos na pesquisa que o uso de arquiteturas de 8 bits é maior que o de 32 e 16 bits. Mas não tanto. A experiência nos 8 bits é oferecida por 81% dos profissionais, mas 74% deles já atuaram com 32 bits. Não muito atrás, 60% dos desenvolvedores já utilizou arquiteturas de 16 bits em algum momento. Talvez pela pouca oferta dos fabricantes, apenas 16% dos profissionais conhecem arquiteturas de 64 bits.

Sobre a experiência com empresas fornecedoras de microcontroladores/microprocessadores, a Microchip lidera com 63%, logo em seguida está a Atmel com 61%. Em terceiro lugar vem a Texas Instruments com 54% e a antiga Freescale (agora é NXP) com 52%. A STMicroeletronics apresenta 38% e a NXP 32% (esse número irá aumentar depois da fusão com a Freescale). Nota-se também a presença da Intel e Altera, ambas com 31%. Existe uma grande variedade de fornecedores com diversas tecnologias. É interessante notar que as fusões entre empresas podem mudar esse cenário em novas pesquisas.

A Microchip lidera na experiência do desenvolvedor com as linhas de 8 bits e 16 bits. Já a linha de 32 bits é bem competida e na sua maioria por empresas que apresentam soluções com núcleo ARM. A lista é liderada pela STMicroeletronics, seguida pela Freescale e NXP, que agora são a mesma empresa. A Microchip vem em quarto lugar com sua linha PIC32. A Freescale vem logo em seguida com os processadores i.MX. Em sexto lugar a Atmel marca presença com seus microcontroladores AVR32. A Intel vem logo em seguida com sua linha de processadores.

Os números apresentados mostram a representatividade das empresas mencionadas para o mercado brasileiro, assim como as soluções de cada uma. Nota-se ainda a liderança de soluções em 8 bits, mas é notável que soluções de 32 bits estão cada vez mais comuns e acessíveis.

Sistemas operacionais

Aparece agora um tema de grande importância em projetos de firmware/software. O uso de sistemas operacionais.

Para o caso de sistemas microprocessados, surge o uso de sistemas operacionais como Linux, Android, Windows, etc. O uso de distribuições Linux prontas, tais como Debian e Ubuntu, em sistemas embarcados foi apontado por 54% dos profissionais. No entanto o uso de imagens Linux customizadas, seja usando Yocto, Buildroot, ou outra ferramenta, é informado por 31% dos respondentes. Se considerarmos a pesquisa anterior, o uso de imagens customizadas aumentou (em 2014 era de 22,2%), já o uso de distros prontas caiu (em 2014 era de 61,8%). Não podemos considerar com uma tendência, dado que o número de respondentes foi menor na pesquisa do ano passado, mas serve como um alerta.

O uso de imagens enxutas e criadas para uma finalidade têm a vantagem de ocupar espaço menor em memória não-volatil e consumir menos processamento do processador, dado que somente os serviços e aplicações dedicados para o projeto estarão em execução. Esse é um desenvolvimento do tipo bottom-top, adicionando o que é necessário ao projeto. Já utilizar uma distribuição pronta traz a vantagem de ter algo pronto, mas é preciso remover o que não é necessário para o projeto e adicionar o que não existe. Podemos considerar esse tipo de um desenvolvimento como top-down.

Esse último pode ser mais rápido do ponto de vista de prototipagem, mas deve ser estudado com carinho no que se refere a produto final. Pois deve-se pensar num seguinte ponto: quando uma nova versão da distro for lançada, o que fazer? Um simples update na imagem corrente nos produtos em campo resolve? Talvez. Mas em novos desenvolvimentos? Será necessário re-customizar a distro pronta? Sim. Se fosse utilizada uma ferramenta de customização, no que se refere às aplicações e serviços, boa parte do trabalho seria reaproveitado. Por isso é utilizado o conceito de layers no Yocto, por exemplo.

O uso de sistemas operacionais Windows aumentou com relação à pesquisa anterior. Somando-se Windows CE e Windows Embedded em cada uma das duas pesquisas, a mais recente aponta o seu uso por 19%, ante 7,1% na do ano passado.

Já no caso de sistemas microcontrolados, o uso do FreeRTOS manteve-se estável, usado por aproximadamente 30% dos profissionais. Já a solução da NXP, o MQX, é usado por 15% dos desenvolvedores, o dobro do ano passado. O uC/OS da Micrium e outros RTOSs comerciais ainda têm uma adoção tímida, limitados em uso por alguns segmentos de mercado, provavelmente.

FPGA

Muito se tem discutido na comunidade de sistemas embarcados o uso e aplicabilidade de FPGA em produtos. Grandes empresas da área de telecomunicações e defesa (dentre outras) fazem uso de FPGA principalmente pela capacidade de processamento paralelo da tecnologia (diferentemente da lógica de programação sequencial de microcontroladores).

Do ponto de vista tecnológico, seria muito interessante ter FPGA como o core principal do produto. No entanto, o preço dos FPGAS não são competitivos com microcontroladores (eg.: é possível comprar microntroladores nas casa do centavos de dolar, o que não é possível em um FPGA), tendo em vista que utilizam SRAM. Talvez um dos motivos pelo qual muitas empresas utilizam um FPGA em protótipo de produto seja a possibilidade teste e validação de conceito em um curto período de tempo. Ou ainda testar performance de cores de microcontroladores, dado que existem softcores para tal.

Só que a performance de um softcore não é a mesma que o core real. Por isso, atualmente, existe uma onda de soluções híbridas, mesclando FPGA e microcontroladores/microprocessadores, num único core. É o caso da Altera, que lançou uma linha SoC de FPGA, com as famílias Arria V SoC, Cyclone V SoC e Stratix 10, e da Xilinx, com a famĺia Xilinx Zynq-7000 (veja a placa MicroZed, desenvolvida pela Avnet).

Temos ainda a placa Papilio, um FPGA que, quando ligada, parece um Arduino. Existe um softcore com o bootloader gravado no FPGA e, dessa forma, é possível usar todos os programas em C para Arduino e programar o seu softcore. Ou ainda pode ser reprogramado e usado como um FPGA.

Temos ainda soluções que podem brigar em preço com microcontroladores, com a da Lattice. Quer brincar com FPGA? Veja este hello world.

Os profissionais de responderam a pesquisa indicaram que estão fazendo uso de FPGA, sendo que 37% deles já usaram essa tecnologia. O mercado brasileiro contradiz um pouco a tendência internacional, sendo o fabricante mais usado no Brasil a Altera (83%), seguido pela Xilinx (53%) e Atmel (8%). A posição forte da Altera no Brasil certamente se dá pelo bom trabalho que ela vem perfazendo no território nacional (programa universitário, boa representação e atendimento), além da qualidade das soluções em software e variedade de hardware.

Agradecimentos

Escreveram e revisaram este texto: Cláudio SampaioDiego Sueiro, Eder TadeuFábio SouzaHenrique Rossi, Rodrigo Pereira e Thiago Lima.